sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

PARA ACABAR COM O JULGAMENTO DE DEUS, ARTAUD

TUTUGURI

Rito de Sol Negro
E lá embaixo, no pé da encosta amarga,
cruelmente desesperada do coração,
abre-se o círculo das seis cruzes
bem lá embaixo
como se incrustada na terra amarga,
desincrustada do imundo abraço da mãe
que baba.
A terra do carvão negro
é o único lugar úmido
nessa fenda de rocha.
Rito é o novo sol passar através de sete pontos antes de explo -
dir no orifício da terra.
Há seis homens
um para cada sol
e um sétimo homem
que é o sol
cru
vestido de negro e carne viva.
Mas este sétimo homem
é um cavalo,
um cavalo com um homem conduzindo-0.
Mas é o cavalo
que é o sol
e não o homem.
No dilaceramento de um tambor e uma trombeta longa
estranha,
os seis homens
que estavam deitados
tombados no rés-do-chão,
brotaram um a um como girassóis,
não sóis
porém solos que giram,
lótus d’água,
e a cada um que brota
corresponde, cada vez mais sombria
e refreada
a batida do tambor
até que de repente chega a galope, a toda velocidade
último sol,
o primeiro homem,
o cavalo negro com um
homem nu,
absolutamente nu
e virgem
em cima.
Depois de saltar, eles avançam em círculos crescentes
e o cavalo em carne viva empina-se
e corcoveia sem parar
na crista da rocha
até os seis homens
terem cercado
completamente
as seis cruzes.
Ora, o tom maior do Rito é precisamente

A ABOLIÇÃO DA CRUZ

Quando terminam de girar
arrancam
as cruzes do chão
e o homem nu
a cavalo
ergue
uma enorme ferradura
banhada no sangue de uma punhalada.

A BUSCA DA FECALIDADE

Onde cheira a merda
cheira a ser.
homem podia muito bem não cagar,
não abrir a bolsa anal
mas preferiu cagar
assim como preferiu viver
em vez de aceitar viver morto.
Pois para não fazer cocô
teria que consentir em
não ser,
mas ele não foi capaz de se decidir a perder o ser,
ou seja, a morrer vivo.
Existe no ser
algo particularmente tentador para o homem
algo que vem a ser justamente

COCÔ (AQUI RUGIDO)

Para existir basta abandonar-se ao ser
mas para viver
é preciso ser alguém
e para ser alguém
é preciso ter um OSSO,
é preciso não ter medo de mostrar o osso
e arriscar-se a perder a carne.
homem sempre preferiu a carne
à terra dos ossos.
Como só havia terra e madeira de ossos
ele viu-se obrigado a ganhar sua carne,
só havia ferro e fogo
e nenhuma merda
e o homem teve medo de perder a merda
ou antes desejou a merda
e para ela sacrificou o sangue.
Para ter a merda,
ou seja, carne
onde só havia sangue
e um terreno baldio de ossos
onde não havia mais nada para ganhar
mas apenas algo para perder, a vida.
reche modo
to edire
de za
tau dari
do padera coco
Então o homem recuou e fugiu.
E então os animais o devoraram.
Não foi uma violação,
ele prestou-se ao obsceno repasto.
Ele gostou disso
e também aprendeu
a agir como animal
e a comer seu rato
delicadamente.
E de onde vem essa sórdida abjeção?
Do fato de o mundo ainda não estar formado
ou de o homem ter apenas uma vaga idéia do que seja o mundo
querendo conservá-la eternamente?
Deve-se ao fato de o homem
ter um belo dia
detido
a idéia do mundo.
Dois caminhos estavam diante dele:
o do infinito de fora
o do ínfimo de dentro.
E ele escolheu o ínfimo de dentro
onde basta espremer
o pâncreas,
a língua,
o ânus,
ou a glande.
E deus, o próprio deus espremeu o movimento.
É deus um ser?
Se o for, é merda.
Se não o for,
não é.
Ora, ele não existe
a não ser como vazio que avança com todas as suas formas
cuja mais perfeita imagem
é o avanço de um incalculável número de piolhos.
"O Sr. Está louco, Sr. Artaud? E então a missa?"
Eu renego o batismo e a missa.
Não existe ato humano
no plano erótico interno
que seja mais pernicioso que a descida
do pretenso Jesus-cristo
nos altares.
Ninguém me acredita
e posso ver o público dando de ombros
mas esse tal cristo é aquele que
diante do percevejo deus
aceitou viver sem corpo
quando uma multidão
descendo da cruz
à qual deus pensou tê-los pregado há muito tempo,
se rebelava
e armada com ferros,
sangue,
fogo e ossos
avançava desafiando o Invisível
para acabar com o JULGAMENTO DE DEUS

A QUESTÃO QUE SE COLOCA...

O que é grave
É sabermos
que atrás da ordem deste mundo
existe uma outra
Que outra?
Não o sabemos.
O número e a ordem de suposições possíveis
neste campo
é precisamente
o infinito!
E o que é o infinito?
Não o sabemos com certeza.
É uma palavra que usamos
para designar
abertura
da nossa consciência
diante da possibilidade
desmedida,
inesgotável e desmedida.
E o que é a consciência?
Não o sabemos com certeza.
É o nada.
Um nada
que usamos
para designar
quando não sabemos alguma coisa
e de que forma
não o sabemos
e então
dizemos
consciência,
do lado da consciência
quando há cem mil outros lados.
E então?
Parece que a consciência
está ligada
em nós
ao desejo sexual
e à fome.
Mas poderia
igualmente
não estar ligada
a eles.
Dizem,
é possível dizer,
há quem diga
que a consciência
é um apetite,
o apetite de viver:
e imediatamente
junto com o apetite de viver
o apetite da comida
imediatamente nos vem à mente;
como se não houvesse gente que come
sem o mínimo apetite;
e que tem fome.
Pois isso também
existe:
os que tem fome
sem apetite;
e então?
Então
o espaço do possível
foi-me apresentado
um dia
como um grande peido
que eu tivesse soltado;
mas nem o espaço
nem a possibilidade
eu sabia exatamente o que fossem,
nem sentia necessidade de pensar nisso,
eram palavras
inventadas para definir coisas
que existiam
ou não existiam
diante da
premente urgência
de uma necessidade:
suprimir a idéia,
a idéia e seu mito
e no seu lugar instaurar
a manifestação tonante
dessa necessidade explosiva:
dilatar o corpo da minha noite interior,
do nada interior
do meu eu
que é noite,
nada,
irreflexão,
mas que é explosiva afirmação
de que há
alguma coisa
para dar lugar:
meu corpo.
Mas como,
reduzir meu corpo
a um gás fétido?
Dizer que tenho um corpo
porque tenho um gás fétido
que se forma em mim?
Não sei
mas
sei que
o espaço,
o tempo,
a dimensão,
o devir,
o futuro,
o destino,
o ser,
o não-ser,
o eu,
o não-eu
nada são para mim;
mas há uma coisa
que é algo,
uma só coisa
que é algo
e que sinto
por ela querer
SAIR:
a presença
da minha dor
do corpo,
a presença
ameaçadora
infatigável
do meu corpo;
e ainda que me pressionem com perguntas
e por mais que eu me esquive a elas
há um ponto
em que me vejo forçado
a dizer não,
NÃO
à negação;
e chego a esse ponto
quando me pressionam,
e me apertam
e me manipulam
até sair de mim
o alimento,
meu alimento
e seu leite,
e então o que fica?
Fico eu sufocado;
e não sei que ação é essa
mas ao me pressionarem com perguntas
até a ausência
e a anulação
da pergunta
eles me pressionam
até sufocarem em mim
a idéia de um corpo
e de ser um corpo,
e foi então que senti o obsceno
e que
soltei um peido
de saturação
e de excesso
e de revolta
pela minha sufocação.
É que me pressionavam
ao meu corpo
e contra meu corpo
e foi então
que eu fiz tudo explodir
porque no meu corpo
não se toca nunca

"POST SCRIPTUM"

Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta eu dizê-lo
como só eu o sei dizer
e imediatamente
verão meu corpo atual
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
notórios
um novo corpo
no qual nunca mais
poderão
me esquecer.

(Transmissão radiofônica realizada por Artaud, Roger Blin, Marie Casarès e Paule Thévenin.)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Trilha da Noite

O Rouxinol de Keats‏

Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. Os últimos sentem que as classes, as ordens e os gêneros são realidades; os primeiros, que são generalizações; para estes, a linguagem não passa de um aproximativo jogo de símbolos; para aqueles, é o mapa do universo. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos, uma ordem; essa ordem, para. o aristotélico, pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. Através das latitudes e das épocas, os dois antagonistas imortais trocam de dialeto e de nome: um é Parmênides, Platão, Spinoza, Kant, Francis Bradley; o outro, Heráclito, Aristóteles, Locke, Hume, William James. Nas árduas escolas da Idade Média, todos invocam Aristóteles, mestre da humana razão (Dante, Convivio, IV, 2), mas os nominalistas são Aristóteles; os realistas, Platão. O nominalismo inglês do século XIV ressurge no escrupuloso idealismo inglês do século XVIII; a economia da fórmula de Occam, “entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem” permite ou prefigura o não menos taxativo “esse est percipi”. Os homens, disse Coleridge, nascem aristotélicos ou platônicos; da mente inglesa cabe afirmar que nasceu aristotélica. O real, para essa mente, não são os conceitos abstratos, e sim os indivíduos; não o rouxinol genérico, e sim os rouxinóis concretos. E natural, é talvez inevitável, que na Inglaterra a “Ode a um rouxinol” não seja bem compreendida.

Que ninguém leia reprovação ou desdém nas palavras acima. O inglês recusa o genérico porque sente que o individual é irredutível, inassimilável e ímpar. Um escrúpulo ético, não uma incapacidade especulativa, impede-o de transitar por abstrações, como os alemães. Não entende a “Ode a um rouxinol”; essa valiosa incompreensão permite-lhe ser Locke, ser Berkeley e ser Hume, e escrever, há cerca de setenta anos, as não escutadas e proféticas advertências do Indivíduo contra o Estado."

O rouxinol, em todas as línguas do orbe, desfruta de nomes melodiosos (nightingale, nachtigall, usignolo), como se os homens instintivamente tivessem querido que esses não desmerecessem o canto que os maravilhou. De tão exaltado pelos poetas, ele agora é um tanto irreal; menos afim com a calhandra que com o anjo. Dos enigmas saxões do Livro de Exeter (“eu, antigo cantor da tarde, trago aos nobres alegria nas vilas”) à trágica Atalanta, de Swinburne, o infinito rouxinol tem cantado na literatura britânica; foi celebrado por Chaucer e Shakespeare, por Milton e Matthew Arnold, mas é a John Keats que fatalmente ligamos sua imagem como a Blake a do tigre.

Borges

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Trilha do Dia



LA LIBERTAD DEL ESPÍRITU

Es un signo de los tiempos, y no muy bueno, que hoy sea necesario -y no sólo necesario, sino incluso urgente- interesar a los espíritus en la suerte del Espíritu, es decir en su propia suerte.

Esta necesidad surge al menos en hombres de cierta edad (cierta edad es, desgraciadamente una edad demasiado cierta), en hombres de cierta edad que han conocido una época completamente diferente, que han vivido una vida completamente diferente, que han aceptado, sufrido, examinado los males y bienes de la existencia en un medio completamente diferente, en un mundo muy diferente.

Admiraron cosas que ya casi no se admiran; vieron vivas verdades que están casi muertas; especularon, en fin, acerca de valores cuyo descenso o derrumbe es tan claro, tan manifiesto y tan ruinoso para sus esperanzas y sus creencias, como el so o el derrumbe de los títulos y las monedas que consideraban, como todo el mundo, valores inquebrantables.

Asistieron a la bancarrota de la confianza que habían tenido en el espíritu, confianza que fue para ellos el fundamento y, de alguna manera, el postulado de su vida ¿pero qué espíritu, y qué entendían por esa palabra?...

Esa palabra es infinita, ya que evoca el origen y el valor de todas las demás. Pero los hombres de los que hablo le adjudicaban una significación particular: tal vez entendían por espíritu una actividad personal pero universal, actividad interior, actividad exterior -que da a la vida, a las fuerzas mismas de la vida, al mundo y a las reacciones que el mundo suscita en nosotros-, un sentido y un uso, una aplicación y una expansión del esfuerzo, o expansión de acción, muy diferentes de los que están adaptados al funcionamiento normal de la vida ordinaria, a la mera conservación del individuo.

Para comprender bien este punto, tenemos que entender aquí por el término «espíritu» la posibilidad , la necesidad y la energía de distinguir y desarrollar las reflexiones y los actos que no son necesarios para el funcionamiento de nuestro orga nismo o que no tienden a una mejor economía de ese funcionamiento.

Pues nuestro ser vivo, como todos los seres vivos, exige la posesión de una capacidad, una capacidad de transformación que se aplica a las cosas que nos rodean en tanto nos las representamos. Esta capacidad de transformación se prodiga para resolver los problemas vitales que nos impone nuestro organismo y nos impone nuestro medio. Somos ante todo una organización de transformación más o menos compleja (conforme a la especie animal), ya que todo lo que vive está obligado a prodigar y recibir de la vida, hay un intercambio de modificaciones entre el ser vivo y su medio. Sin embargo, una vez satisfecha la necesidad vital, una especie, la nuestra, especie positivamente extraña, cree su deber crearse otras necesidades y otras tareas además de la de conservar la vida: otros intercambios la preocupan, otras transformaciones la requieren.

Sea cual sea el origen, sea cual sea la causa de esta curiosa desviación, la especie humana se ha empeñado en una inmensa aventura... Aventura cuyo objetivo ignora, como ignora su término e incluso cree ignorar sus límites.

Se empeñó en esta aventura, y lo que llamo el espíritu le ha provisto a la vez la dirección instantánea, el aguijón, la punta, el empuje, el impulso, como le ha provisto los pretextos y todas las ilusiones que necesita para la acción. Esos pretextos e ilusiones variaron, además, de época en época. La perspectiva de la aventura intelectual es cambiante... Esto es pues, aproximadamente, lo que quise decir con mis primeras palabras.

Quiero detenerme un poco más sobre este punto, para mostrar con más precisión cómo se diferencia la capacidad humana -no completa-mentede la capacidad animal que está concentrada en conservar nuestra vida y se especializa en el cumplimiento de nuestro ciclo habitual de funciones fisiológicas.

Se diferencia; pero se asemeja, y está estrechamente emparentada a ella. Es un hecho importante que esta similitud, que radica en la reflexión, es singularmente fecunda en consecuencias.

La observación es muy simple: no hay que olvidar que, hagamos lo que hagamos, sea cual sea el objeto de nuestra acción, cualquiera sea el sistema de impresiones que recibimos del mundo que nos rodea y sean las que sean nuestras reacciones, el mismo organismo es el encargado de esta misión, el mismo aparato de relaciones se utiliza para las dos funciones que indiqué, la útil y la inútil, la indispensable y la arbitraria.

Son los mismos sentidos, los mismos músculos, los mismos miembros; además son los mismos tipos de signos, los mismos instrumentos de intercambio, los mismos lenguajes, los mismos modos lógicos, que participan en los actos más indispensables de nuestra vida, y aparecen en los actos más gratuitos, más convencionales, más suntuarios. Resumiendo, el hombre no tiene dos instrumentos; sólo tiene uno, y ese instrumento le sirve tanto para la conservación de la existencia, del ritmo fisiológico, como para emplearlo en las ilusiones y en los trabajos de nuestra gran aventura.

Paul Valéry, 1939.

Les yeaux sans visage

Judex












«O mistério, o fascínio, a profundidade de um buraco negro».

Notion générale de l’art

I. Le mot ART a d’abord signifié manière de faire, et rien de plus. Cette acception illimitée a disparu de l’usage.

II. Ensuite, ce terme s’est peu à peu réduit à désigner la manière de faire en tous les genres de l’action volontaire, ou instituée par la volonté, quand cette manière suppose dans l’agent une préparation, ou une éducation, ou du moins, une attention spéciale, et que le résultat à atteindre peut être poursuivi par plus d’un mode d’opération. On dit de la Médecine qu’elle est un Art ; on le dit aussi bien de la Vénerie, de l’Équitation, de la conduite de la vie ou d’un raisonnement. Il y a un art de marcher, un art de respirer : il y a même un art de se taire.

Comme les divers modes d’opération qui tendent au même but ne présentent pas, en général, la même efficacité ou la même économie, et ne sont pas, d’autre part, également offerts à un exécutant donné, la notion de la qualité ou de la valeur de manière de faire s’introduit naturellement dans le sens de notre mot. On dit : l’Art du Titien.

Mais ce langage confond deux caractères que l’on attribue à l’auteur de l’action : l’un est son aptitude singulière et native, sa propriété personnelle et intransmissible ; l’autre consiste dans son « savoir », son acquisition d’expérience exprimable et transmissible. Dans la mesure où cette distinction peut s’appliquer, on en conclut que tout art peut s’apprendre mais non tout l’art. Toutefois la confusion de ces deux caractères est presque inévitable, car leur distinction est plus facile à énoncer qu’à démêler dans l’observation de chaque cas particulier. Toute acquisition exige au moins un certain don d’acquérir, cependant que l’aptitude la plus marquée, la mieux inscrite dans une personne, peut demeurer sans effets, ou sans valeur au regard des tiers, – et même rester ignorée de son possesseur lui-même – si quelques circonstances extérieures ou quelque milieu favorable ne l’éveillent, ou si les ressources de la culture ne l’alimentent.

En résumé, l’ART, en ce sens, est la qualité de la manière de faire (quel qu’en soit l’objet), qui suppose l’inégalité des modes d’opération, et donc celle des résultats, – conséquences de l’inégalité des agents.

Paul Valéry
, número 266 da Nouvelle Revue française, novembro de 1935.

L’infini esthétique

La plupart de nos perceptions excitent en nous, quand elles excitent quelque chose, ce qu’il faut pour les annuler ou tenter de les annuler. Tantôt par un acte, réflexe ou non, – tantôt par une sorte d’indifférence, acquise ou non, nous les abolissons ou tentons de les abolir. Il existe en nous à leur égard une tendance constante à revenir au plus tôt à l’état où nous étions avant qu’elles se soient imposées ou proposées à nous : il semble que la grande affaire de notre vie soit de remettre au zéro je ne sais quel index de notre sensibilité, et de nous rendre par le plus court un certain maximum de liberté ou de disponibilité de notre sens.

Ces effets de nos modifications perceptibles qui tendent à en finir avec elles sont aussi divers qu’elles-mêmes sont diverses. On peut toutefois les assembler sous un nom commun, et dire : l’ensemble des effets à tendance finie constitue l’ordre des choses pratiques.

Mais il est d’autres effets de nos perceptions qui sont tout opposés à ceuxci : ils excitent en nous le désir, le besoin, les changements d’état qui tendent à conserver, ou à retrouver, ou à reproduire les perceptions initiales.

Si un homme a faim, cette faim lui fera faire ce qu’il faut pour être au plus tôt annulée ; mais si l’aliment lui est délicieux, ce délice voudra en lui durer, se perpétuer ou renaître. La faim nous presse d’abréger une sensation ; le délice, d’en développer une autre ; et ces deux tendances se feront assez indépendantes pour que l’homme apprenne bientôt à raffiner sur sa nourriture et à manger sans avoir faim.

Ce que j’ai dit de la faim s’étend aisément au besoin de l’amour ; et d’ailleurs à toutes les espèces de sensation, à tous les modes de la sensibilité dans lesquels l’action consciente peut intervenir pour restituer, prolonger ou accroître ce que l’action réflexe toute seule semble faite pour abolir. La vue, le toucher, l’odorat, l’ouïe, le mouvoir, le parler nous induisent de temps à autre à nous attarder dans les impressions qu’ils nous causent, à les conserver on à les renouveler.

L’ensemble de ces effets à tendance infinie que je viens d’isoler, pourrait constituer l’ordre des choses esthétiques.

Pour justifier ce mot d’infini et lui donner un sens précis, il suffit de rappeler que, dans cet ordre, la satisfaction fait renaître le besoin, la réponse régénère la demande, la présence engendre l’absence, et la possession le désir.

Tandis que dans l’ordre que j’ai appelé pratique, le but atteint fait évanouir toutes les conditions sensibles de l’acte, (dont la durée elle-même est comme résorbée, ou ne laisse guère qu’un souvenir abstrait et sans force), il en est tout contrairement dans l’ordre esthétique.

Dans cet « univers de sensibilité », la sensation et son attente sont en quelque manière réciproques, et se recherchent, l’une l’autre indéfiniment, comme dans « l’univers des couleurs », des complémentaires se succèdent et s’échangent l’une contre l’autre, à partir d’une forte impression de la rétine.

Cette sorte d’oscillation ne cesse point d’elle-même elle ne s’épuise ou n’est interrompue que par quelque circonstance étrangère – comme la fatigue – qui l’extermine, abolissant ou différant la reprise.

La fatigue (par exemple) s’accompagne d’une diminution de sensibilité à l’égard de la chose qui fut d’abord un délice ou un désir : il faut changer d’objet.

Le changement se fait souhaitable en soi : la variété se fait demander comme complémentaire de la durée de notre sensation et comme remède à une satiété qui résulte de l’épuisement des ressources finies de notre organisme, sollicité par une tendance infinie, locale, particulière ; nous serions donc un système d’intersection de fonctions – système dont les interruptions de chaque activité partielle seraient une condition.

Pour pouvoir désirer encore, il faut désirer autre chose ; et le besoin de changement s’introduit comme indice du désir de désir, ou désir de quoi que ce soit qui se fasse convoiter.

Mais si l’événement ne se produit pas, si le milieu où nous vivons ne nous offre pas assez promptement un objet digne d’un développement infini, notre sensibilité s’excite à produire soi-même des images de ce qu’elle souhaite, comme la soif engendre des idées de boissons merveilleusement fraîches...

Ces considérations très simples permettent de séparer ou de définir assez nettement ce domaine issu de nos perceptions et entièrement constitué par les relations internes et les variations propres de notre sensibilité que j’ai nommé l’ordre des choses esthétiques. Mais l’ordre des tendances finies, l’ordre pratique, qui est l’ordre de l’action, se combine de bien des manières avec celui-ci. En particulier, ce que nous appelons une « OEuvre d’art » est le résultat d’une action dont le but fini est de provoquer chez quelqu’un des développements infinis. D’où l’on peut déduire que l’artiste est un être double, car il compose les lois et les moyens du monde de l’action en vue d’un effet à produire l’univers de la résonance sensible. Quantité de tentatives ont été faites pour réduire les deux tendances à l’une d’entre elles : l’Esthétique n’a point d’autre objet. Mais le problème demeure entier.

Paul Valéry, « L’infini esthétique » (1934), in OEuvres, tome II, Pièces sur l’art.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

UMA VIDEOLOGIA DA NOVELA, A DOENÇA DA NAÇÃO

Cine Imaginário - maio/1988
Rogério Sganzerla

Não quero convencer ninguém mas, se me perguntarem porque não há eleições diretas para Presidência há mais de um quarto de século eu responderei (acreditem se quiser) que há pouco menos do que isso o imaginário nacional foi ocupado por uma manipulação de natureza escatológica, muito mais que escapismo ou válvula de escape, é alienação 100% embrutecedora, chamada novela. Não é arte, diga-se de passagem, aqui não vai nenhum preconceito contra uma fórmula (não há forma) de dominação mental de 120 milhões de humilhados pela gratuidade descartável do universo baixo entretenimento; a fórmula deriva do folhetim, um gênero igualmente periódico, alimentador de sonhos e pesadelos descartáveis, mas com uma incomparável qualidade artística e estilística que a telenovela, infelizmente, não tem... Se tivesse alguma qualidade de informação artística ou cultural, com seu quarto de século de insistência redundante, já teria apresentado. Afora o comportamento (freqüentemente falso, deformado e classista) a novela nada tem a ver com arte ou cultura. Já o folhetim, seu antecessor em letra de forma, ao contrário, muito tem a ver com a melhor literatura em certos casos especiais (Machado de Assis escreveu Helena e Yayá Garcia inicialmente para jornal, tendo sido tipógrafo; igualmente Lima Barreto publicou folhetins etc., entre nós).

No exterior, o teledrama da televisão nova-iorquina dos anos cinqüenta influenciou todo o melhor cinema polêmico da época: The left hand, estréia de Arthur Penn na direção, proveio de um sucesso eletrônico, pontualmente dividido em capítulos que por sua vez determinariam a fórmula fragmentária de um novo tipo de cinema; Doze homens e uma sentença também proveio de um texto escrito especialmente para a televisão, revelador de inúmeros talentos como Paddy Chaiefsky de Despedida de Solteiro, etc.

Claro, lá fora é diferente. Mas, aqui o que surgiu, além de ibope e exploração sentimental de uma platéia inculta e analfabeta? De minha parte, lembro bem das vexaminosas correrias em torno de Albertinho Limonta e sua troupe por ocasião da vidiotização lacrimejante da colônia via O direito de nascer. Foi o início da "nossa" revolução cubana: a cretinização de um veículo e de uma sociedade em nome da exploração comercial. Pouco tempo depois surgia também outro vexame histórico: a passeata das mal-amadas, manipuladas para derrubar um regime democrático, com a desculpa de conter dois itens em que o regime implantado iria bater todos os recordes de agressão à opinião pública: a corrupção e a inflação.

A televisão espontânea morreu quando conheceu o video-tape, perdendo o sabor incentivo de espontânea inquietação - passou a ser "cozinhada" nas mesas de edição. Com o predomínio da novela, ainda popularesca, virou um prato feito para débeis mentais, devido à pretensão provinciana de seus detentores. No início da década de setenta, salvavam-se os programas de humor e os instantes de liberdade de informação, devido a competência de seus apresentadores. No entanto, as novelas não eram boas, mas pelo menos não eram tão assépticas, modernosas e medíocres como hoje em dia.

Não há forma mas fórmulas: ti-ti-ti, fuxico, alcoviteiros. E só... jogam conversa fora.

Atualmente, além de só jogar conversa fora não há conflito na novela. O apelo ao "plot" tenta justificar o ti-ti-ti permanente. Na verdade, os personagens (as vezes delineados por autores sensíveis e atores talentosos) não lutam ou discutem entre si; freqüentemente falam mal de um outro personagem fora de cena (geralmente acabou de sair). Ora, falar mal da vida alheia com desculpa da ausência não sustenta dramaturgia e não há ninguém inteligente que aguente essa apelação, além do mais um péssimo exemplo para a fragilidade mimética das crianças (eis também uma das razões da apoplexia, afonia e inexpressiva vacilação de milhões de débeis mentais, vítimas inconscientes da lavagem cerebral eletrônica, um veículo novo mas totalmente dominado e falido em sua vocação de educação ou informação progressiva, um crônico mau exemplo para as novas gerações e aqueles que ainda não nasceram mas já estão sendo roubados pelo sistema de babilônia). Desse jeito o veículo mais novo tornou-se o mais velho: uma torneira aberta, inferior ao rádio (que exigia certa concentração)... Não sou contra as pessoas que fazem a televisão ser tão mesquinha e devagar mas contra os preconceitos impostos por uma minoria que não soube compreender o veículo. Imitar demais a televisão americana só poderia dar em cópia subserviente, colonialismo provinciano ou macaquismo de auditório e, sobretudo, em anacoluto e deformação pleonástica. Quanto ao ganha-pão de atores e técnicos, tudo bem. Se bem que a deformação aí seja igualmente intolerável, considerando-se que por ano despejam setecentos enlatados estrangeiros e uma dezena de nacionais (os piores nacionais, típicos desse modelo de ocupação da moda pelo medo ou vice-versa, sempre excluindo a inventiva criatividade de nosso cinema do presente ou do passado, do curta e do longa, do bom e não só do ruim teor transmitindo eletronicamente). Não falemos dessa área mas poderíamos falar. A deformação formulizadora é a mesma: novela, cinemão, enlatado, tudo "telefone-branco"... E o que tem a ver isso com o fracasso das diretas ou a grande ausência de uma verdadeira democracia representativa entre nós?

Tem tudo a ver. Só um burro, ou um vidiota não percebe. Por quê? A cada dia e noite milhões de brasileiros são ludibriados pela gratuidade ostensiva de cenários alheios à encenação, em que a desejável ação interior é substituída pela multiplicação de coadjuvantes que só servem para encher lingüiça ou - suprema descoberta da "modernidade" mais irritante... - o império pouco criativo e previsível do "merchandising" abusivo. Da arte moderna, os clichês; dos efeitos cinematográficos, os defeitos televisivos; da liberação de costumes, a coisificação mercadológica. A fórmula antimágica da novela brasileira só retira e expropria, confisca o público, oprimido pelo custo de vida, sem pão nem circo (mal servido pelo cinema, traído pelo futebol, bombardeado pelo rádio) não tem muitas opções senão suportar o discurso, resistindo à saturação pelo esquecimento de sua criatividade, negada há décadas nas urnas, câmeras e microfones.

O povo brasileiro, tradicionalmente espontâneo e inventivo, se esquece de sua famosa intuição, bossa, sexto sentido através do quê? A novela é um dos mais destacados capítulos da história do desespero alienado de um povo humilhado pela infeliz marcha dos acontecimentos...

Bate-bocas e têtes a tete (reuniões) que só levam à galinhagem pura e simples.

Resultado: a classe média sobrevive sob a síndrome da passarela.

A população não quer ver, nem ouvir com olhos e ouvidos livres, mas tão somente ser vista, aparecer, fazer fama para deitar na cama do subsucesso fácil, talvez virar sub-super-star de uma hora para outra, trair sua condição colonial, enganando aos outros e, pior de tudo, a si mesmo. O brasileiro não quer ver mas ser visto. Nem escolher mas ser escolhido pelo sistema babilônico...

Macaquear é preciso... Estão aí os videotismos, cacoetes e maneirismos.

Passar a perna, levar vantagem, tirar proveito próprio explicam mais a nação ocupada pela má-consciência do que o complexo de culpa e a culpabilidade colonial de autores (as vezes competentes, em luta contra o aparelho repressivo no interior da produção/distribuição do subproduto pasteurizado, censura igualmente primária).

O videotismo é total. Isso sem falar no provincianismo, redundância, ausência de expressão e dicção, mediocrização do ser humano, cretinização da opinião pública, desacerto dos cortes entre uma seqüência e outra, imposição de bandas sonoras importadas de péssima qualidade, mitificação da mediocridade, abuso de autoridade e desrespeito ao próximo, nível ginasiano da representação...

Não falaremos dos comerciais porque aí o panorama é ainda mais desolador.

A novela só não é pior que o enlatado, igualmente gratuito e agressivo em suas tomadas externas. Pelo menos, um atributo: ensinou o público brasileiro a ouvir a ação, devido às qualidades do som de freqüência modulada que o cinema não apresentou. Afora isso suas qualidades provêm exclusivamente do cinema. Mas e o nosso maltratado cinema nacional - de qual o veículo seguiu o exemplo, sem apresentar a espontânea inquietação, sobretudo dos anos sessenta - onde fica? Se você pensar que um clássico como O Pagador de Promessas Palma de Ouro em Cannes, premiado em S. Francisco, só foi projetado na televisão brasileira com uma década e meia de atraso, dá vontade de esquecer o assunto que deveria estar na pauta da mísera ou não, necessária Constituição feita para salvaguardar direitos e obrigações, sobretudo nas questões de trabalho e destinação da informação nacional. Ora, tudo isso é ficção; o máximo que fazem é uma novela sobre o assunto e durma-se com um barulho destes.

E no entanto o cinema brasileiro faz noventa anos em 1988.

Não se esquecem que o velho e bom lrineu Marinho, além de corredor de automóveis, foi cineasta: o que acontecerá com documentos da vida moderna como Limite, O Canto da Saudade, O canto do mar, Agulha no palheiro, O grande momento, Absolutamente certo, O rei do samba, O bandido da luz vermelha, Bla-bla-bla e muitos outros? (existem cópias e o público está cada vez mais carente de verdadeira informação filmológica).

Que tal viagem ao fim do mundo, magnífico trabalho de 1967 assinado por Fernando Campos? Deveria estar incluído entre os filmes que precederam e assumiram o movimento de 1968.

O Anjo Nasceu é de 1969 mas representa um tipo de revelação que todos poderiam, pelo menos, tomar conhecimento e vibrar com sua textura... Biscoito fino na prateleira é uma raridade generalizada no deserto de idéias chamado mercado.

Da produção à veiculação, talvez a única possibilidade de afirmação da nacionalidade, permitida pelo atual sistema Babilônico, seja a novela que, assim apesar de feita por pessoal competente, com autores ágeis e atrizes de expressão não é, nunca será arte. O folhetim jornalístico aproximava-se do romance e tinha uma vida própria. A novela só copia, dilui, deforma e dificulta a relação do homem brasileiro com seu consciente e inconsciente. A perda de tempo é imensa, se contarmos os períodos de tempo em que a idiotia se transforma em convencionalidade. Ela existe para fazer boi dormir, enganar os otários e desviar a atenção do assunto principal: acesso ao próprio mercado por parte de outras artes industriais.

Em nenhum país do mundo a televisão é tão centralizadora e renitente em relação ao veículo cinematográfico.

As televisões oficiais são menos cumpridoras do seu dever e direito de veicular o filme brasileiro de livre exportação poética.

Enlatado por enlatado, projetem-se as antigas chanchadas, por exemplo, aliás muito mais moderna do que os pretensos modernosos.

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