quinta-feira, 24 de setembro de 2015

True Detective



Uma das mais complexas, soturnas, sinfónicas e progressivamente luminosas criações que vi e ouvi nos últimos anos chama-se "True Detective" - que importa se é a chamada série para televisão, uma curta-metragem de dois minutos ou um vídeo arrancado em telemóvel por alguém que não pôde deixar de o fazer sob consequência de paralisar, alguém que descobriu uma refracção inédita, uma poética, duração, narrativa, desconhecido... quem diz o contrário é o mais rasca, inútil e medricas dos moralistas, e, como diz a personagem de Rust Cohle nessa criação - Matthew McConaughey, o mais bestial (de besta mesmo, e portanto com as ténues dádivas conservadas) dos actores - quem dá conselhos fala para si próprio - onde o passado e as acorcovadas questões da criação e da existência e da evolução se unem para assombrar cada passo, cada relação, certeza, credo ou filosofia. Nada ganha resposta - o espaço, o tempo, os eternos retornos, ciclos, Deus, o nada. Cúmulo de uma construção em que o meio orgânico e indomável que nos acolhe - do demónio à florestação - embate com o racional e o humano para um envolvimento de impossível separação; a técnica e ontologia cinematográfica (como diria televisiva ou amadora) nasce e corre por dentro, de onde tudo está certo, por isso belo e terrível, sem uma nota em falso que não a privilegiada a tudo o que existe. Se o citado Faulkner ou Nathaniel Hawthorne presenciassem tal, de certeza quereriam filmar, juntar a imagem e o eco, o que se vê e o que se escuta com o que se pensa ver e se pensa escutar, mais o que transcende a ideia feita e a imaginação; esquecer e convergir na elipse, condensar universos na presença e na respiração antes ou depois das palavras – espelhar e materializar a abstracção e a monstruosidade fantasmática nelas latente. Rust Cohle, Burke Devine, tão opostos, tão semelhantes, ali onde os extremos não só se tocam mas antes de tudo se encontram. Rust, que não quer acreditar nem amar, apenas ser testemunha do embuste e da destruição, sacrifica-se pela terra toda, em alcance também ele imulatório. Ou seja, mais um anjo, maculado e imaculado pelo mais belo acto de continuar, erguendo e destruindo, para a frente. “Por isso não desfalecemos; e ainda que o nosso homem exterior se vá consumindo, o interior, contudo, renova-se dia-a-dia.” lê-se nos Coríntios. Tal é levado não a radicalismos cósmicos mas a necessidades dessas, o combustível da resistência e do avanço, via-crúcis dos honestos e amantes calados. Um dos mais belos, e tão sofrente ou não, personagens que nos falaram. Quando a noite avança, o seu colega possuído por Woody Harrelson, tão em pé como na alvorada, passadas as intempestivas provações, une-se a Rust, já sem evasivas. E a dimensão de ventura que perpassou todo o curso é desmitificada, a metafísica extingue-se, a substância revela-se - no final só há de haver um tempo e um espaço, aglutinados pelo amor. Ficam e ficamos para lá das estrelas, na mais eterna das batalhas, a luz furando na escuridão, a escuridão a precisar da luz, sem barreiras.

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