quinta-feira, 19 de março de 2015

"Naturalmente muitas pessoas entendem por Levana o poder tutelar que protege e controla a educação das crianças. Mas não creiam que se trata aqui dessa pedagogia que reina apenas por meio dos alfabetos e das gramáticas; é preciso pensar principalmente nesse vasto sistema de forças centrais que se oculta no seio profundo da vida humana, e que trabalha incessantemente as crianças, ensinando-lhes sucessivamente a paixão, a luta, a tentação, a energia da resistência. Levana enobrece o ser humano que ela protege, mas por meios cruéis. É dura e severa, essa doce ama, e entre os processos que usa para aperfeiçoar a criatura humana prefere, acima de todos, a dor. Três deusas lhe são submissas, e elas as emprega em seus desígnios misteriosos. Assim como há três Graças, três Parcas, três Fúrias, e assim como primitivamente havia três Musas, há três deusas da tristeza. São as nossas Nossas Senhoras das Tristezas.
“Eu as via muitas vezes conversando com Levana, e algumas inclusive conversando comigo. Pois então elas falavam? Oh! não. Esses poderosos fantasmas desdenham as insuficiências da linguagem. Podem proferir palavras através dos órgãos do homem, quando habitam um coração humano; mas, entre si, não se servem da voz; não emitem sons; um silêncio eterno reina em seus reinos... A mais velha das três irmãs se chama Mater Lachrymarum, ou Nossa Senhora das Lágrimas. É ela que, noite e dia, divaga e geme, invocando rostos desaparecidos. Era ela que estava em Roma, quando se ouviu uma voz lamentar-se, a de Raquel, chorando os seus filhos e não querendo ser consolada. Estava também em Belém, na noite em que a espada de Herodes varreu todos os inocentes de seus asilos... Seus olhos são alternadamente meigos e penetrantes, assustados e adormecidos, erguendo-se muitas vezes para as nuvens, frequentemente acusando os céus. Traz um diadema sobre a cabeça. E sei, por lembranças da infância, que pode viajar nos ventos quando ouve o soluço das litanias ou do trovão do órgão, ou quando contempla o desabamento das nuvens do verão. Essa irmã mais velha traz a cinta chaves mais poderosas que as chaves papais, com as quais abre todas as cabanas e todos os palácios. Foi ela que, eu o sei, durante o verão passado, ficou à cabeceira de um mendigo cego, aquele com quem eu gostava tanto de conversar e cuja piedosa filha, de oito anos, fisionomia luminosa, resistia à tentação de se juntar à alegria do burgo, para vagar o dia inteiro pelas estradas poeirentas com seu aflito pai. Por isso, Deus enviou-lhe uma grande recompensa. Quando chegou a primavera, e quando ela própria começava a florir, chamou-a para si. Seu pai cego ainda chora, e sempre à meia noite sonha que segura ainda entre as suas a mãozinha que o guiava e desperta sempre nas trevas que são agora novas e mais profundas trevas... É com a ajuda dessas chaves que Nossa Senhora das Lágrimas se introduz, fantasma tenebroso, nos quartos dos homens que não dormem, das mulheres que não dormem, das crianças que não dormem, desde o Ganges até o Nilo, do Nilo ao Mississipi. E como ela foi a primeira a nascer e possui o império mais vasto, honrá-la-emos com o nome de Madona.
“A segunda irmã se chama Mater Suspiriorum, Nossa Senhora dos Suspiros. Nunca escala as nuvens ou passeia sobre os ventos. Em sua fronte, não há diadema. Seus olhos, se pudéssemos vê-los, não pareceriam meigos, nem penetrantes; não se poderia descobrir deles nenhuma história; encontrar-se-ia somente uma massa confusa de sonhos quase mortos ou restos de um delírio esquecido. Nunca levanta os olhos, sua cabeça, coberta por um turbante em frangalhos, cai constantemente e constantemente olha para o chão. Não chora, não geme. De quando em quando suspira ininteligivelmente. Sua irmã, a Madona, mostra-se por vezes tempestuosa e frenética, delira contra o céu e reclama seus bem-amados. Mas Nossa Senhora dos Suspiros não grita nunca, não acusa nunca, não sonha nunca com a revolta. É humilde até a abjeção. Sua doçura é a mesma dos seres sem esperança... Se murmura algumas vezes é em lugares solitários, desolados como ela, em cidades arruinadas, e quando o sol desceu para o seu repouso. Essa irmã é a visitadora do Pária, do Judeu, do escravo que rema nas galeras;... da mulher sentada nas trevas, sem amor para abrigar a cabeça, sem esperança para iluminar sua solidão;... de todo cativo na prisão; de todos que são traídos e de todos os que são rejeitados; dos que são proscritos pela lei da tradição e dos filhos da desgraça hereditária. Todos eles são acompanhados por Nossa Senhora dos Suspiros. Ela traz também uma chave, mas não tem necessidade dela. Pois seu reino está sobretudo sobre as tendas de Sem e os vagabundos de todos os climas. No entanto, encontra alguns altares nos mais altos postos da humanidade, e mesmo na gloriosa Inglaterra há homens que, perante o mundo, levantam a cabeça tão orgulhosamente quanto uma rena e que, secretamente, receberam sua marca na fronte.
“Mas a terceira irmã, que é também a mais jovem!... Psiu! Falemos dela bem baixinho. Seu domínio não é grande; se o fosse, nenhum ser sobreviveria; mas sobre o seu reino o poder que exerce é absoluto... Apesar do triplo véu de crepe que envolve a sua cabeça, por mais erguida que a traga, pode-se ver por baixo a luz selvagem que escapa de seus olhos, luz de desespero sempre flamejante, nas manhãs e nas noites, ao meio dia como à meia noite, à hora do fluxo como à hora do refluxo. Ela desafia Deus. É também a mãe das demências e a conselheira dos suicídios... A Madona caminha com um passo irregular, rápido ou lento, mas sempre com uma graça trágica. Nossa Senhora dos Suspiros desliza timidamente e com precaução. Mas a mais jovens das irmãs move-se com movimentos imprevistos; salta; tem os pulos do tigre. Não carrega consigo uma chave, pois, embora visite raramente os homens, quando lhe é permitido aproximar-se de uma porta, toma-a de assalto e a arromba. E o seu nome é Mater Tenebrarum, Nossa Senhora das Trevas.
“Tais eram as Eumenides ou Graciosas Deusas (como dizia a antiga lisonja inspirada pelo temor) que assombravam meus sonhos em Oxford. A Madona falava com sua mão misteriosa. Tocava-me na cabeça, chamava com o dedo Nossa Senhora dos Suspiros, e seus sinais, que nenhum homem pode entender, salvo em sonho, poderiam ser assim traduzidos: ‘Vê! Aqui o tens, aquele que na infância consagrei a meus altares. Fiz dele o meu favorito. Perdi-o, seduzi-o, e do alto do céu atraí o seu coração ao meu. Por mim tornou-se idólatra; por mim, cheio de desejos e langores, adorou o verme da terra e dirigiu suas preces ao túmulo verminoso. Sagrado para ele era o túmulo; amáveis eram as suas trevas; santa a sua corrupção. Preparei esse jovem idólatra para ti, querida e meiga Irmã dos Suspiros! Toma-o agora em teu coração e prepara-o para a nossa terrível Irmã. E tu – voltando para Mater Tenebrarum – recebe-o dela por tua vez. Faze com que teu cetro pese sobre sua cabeça. Não permitas que uma mulher, com sua ternura, venha sentar-se junto dele na sua noite. Expulsa todas as fraquezas da esperança, seca os bálsamos do amor, queima a fonte das lágrimas; amaldiçoa-o como só tu sabes amaldiçoar. Assim tornar-se-á perfeito na fornalha; assim verá as coisas que não deveriam ser vistas, os espetáculos que são abomináveis e segredos que são indizíveis. Assim, lerá as antigas verdades, tristes verdades, as grandes, as terríveis verdades. Assim ressuscitará antes de ter morrido. E nossa missão estará cumprida, missão que recebemos de Deus, que é a de atormentar seu coração até que tenhamos desenvolvido as faculdades de seu espírito’.”
II – Levana e As Nossas Senhoras das Tristezas; VIII – Visões de Oxford. Comedor de Ópio. Charles Baudelaire, Paraísos Artificiais.

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