sexta-feira, 13 de dezembro de 2013




"Alguns se perguntam se o pintor tem necessidade de saber outra coisa além de ver e se servir de sua técnica.

Dizem, por exemplo: muitos maus pintores conheceram a anatomia que muitos bons pintores ignoraram. Logo, nada de anatomia.

O mesmo raciocínio para a ciência da perspectiva.

Digo-lhes que seria preciso conhecer tudo; mas, de preferência, saber utilizar o que se conhece.

Vê-se de modo completamente diverso um objeto cuja estrutura se conhece. Não se trata de mostrar músculos sob a pele, mas de pensar um pouco no que está embaixo dela. Isso leva a um questionário profundo. Não vejo senão vantagens nisso.

Mas eis uma observação que faço: quanto mais se afasta a época em que a perspectiva e anatomia não eram negligenciadas, mais a pintura se restringe ao trabalho de observação do modelo, menos ela inventa, compõe e cria.

O abandono da anatomia e da perspectiva foi simplesmente o abandono da ação do espírito na pintura em favor apenas do divertimento instantâneo do olho.

A pintura europeia perdeu nesse momento algo de sua vontade de poder...

E, por conseguinte, de sua liberdade.

Quem se lançaria hoje na empreitada de um Michelangelo ou de um Tintoretto, isto é, numa invenção que brinca com os problemas de execução, que enfrenta os grupos, os escorços, os movimentos, as arquiteturas, os atributos e naturezas-mortas, a ação, a expressão e o cenário, com uma temeridade e um prazer extraordinários?"

Paul Valéry - Degas Dança Desenho

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