domingo, 8 de setembro de 2013




«Tinha virado mesmo uma vagabundo? Ficava pensando ao invés de me lançar diretamente ao trabalho... Na verdade, no fundo, eu fazia pouca força para poder encontrar emprego... Era invadido por uma espécie de névoa diante de cada campainha... Não tinha sangue de mártir... Merda! Tinha o defeito dos medíocres... Adiava sempre as coisas para o dia seguinte... Experimentei um outro bairro, menos tórrido, com mais brisa... mais sombra... Inspecionei as lojas em volta das Tulherias... debaixo das arcadas elegantes... nas grandes avenidas... Perguntava aos joalheiros se não precisavam de um rapaz... Pegava fogo debaixo do casaco... Não precisavam de ninguém... No fim, eu ficava mesmo no Jardim... Falava com as putas... Passava horas debaixo das árvores... sem fazer nada, bem à vontade, bebendo cerveja e participando dos divertimentos... Havia o homem-ovo, a orquestra de címbalos em volta dos cavalos com pneus...» (Céline, "Morte a Crédito")

« Quando nos sobrava tempo antes de regressarmos à noite, íamos espiá-los, minha mãe e eu, aqueles camponeses engraçados, empenhados em remexer com ferro essa coisa mole e granulosa que é a terra, onde a gente põe para apodrecer os mortos mas de onde afinal vem o pão. 'Deve ser muito dura, a terra!', observava ela toda vez, olhando-os, minha mãe, bastante perplexa. Em matéria de desgraças só conhecia as que se assemelhavam às suas, as das cidades, tentava imaginar o que podiam ser as do campo. Foi a única curiosidade que algum dia eu soube que possuía, minha mãe, e isso lhe bastava como distração para um domingo. Voltava com isso para cidade. » (Céline, "Viagem ao Fim da Noite")

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