quinta-feira, 1 de março de 2012


Primeiro filme de Nicholas Ray, inscrito no campo ao mesmo tempo estrito e aberto a todas as transgressões do filme noir. Desde sua primeira obra, e de uma forma quase espontânea, Ray torna-se um expert na transgressão de gêneros. Ele negligencia, ainda mais que Huston em The asphalt jungle, a ação propriamente dita, escamoteia várias cenas espetaculares e passa de lado pela briga onde Howard da Silva (Chickamaw) encontra a morte. O que lhe interessa é mergulhar seu casal de jovens inocentes, Bowie e Keechie, em um mundo noturno e violento, composto quase unicamente de lugares de passagem (motel, sala de espera, auto-estrada), onde se esvaem a melancolia e a angústia dos personagens que os atravessam. O relevo selvagem dos personagens secundários, Chickamaw o cego, Mattie a delatora, que em si mesmos interessam pouco a Nicholas Ray, lhe servirá para exaltar a juventude e a vulnerabilidade dos dois heróis, descritos com este tom de lirismo terno e empolgante que nunca teve tanta força quanto em seu estilo.

Como em muitos de seus filmes, trata-se aqui essencialmente de uma obra poética, ou seja, uma obra na qual a figura da metáfora orienta toda intriga do filme, tanto em seus desenvolvimentos quanto em seus parênteses. A desorientação, a inadaptação ao meio (a um meio degradado, apodrecido) que caracteriza os dois heróis representa a melhor imagem que Ray encontrou para exprimir o exílio interior do homem e este sentimento de estranhamento a tudo , e em primeiro lugar a eles mesmos, que sentem certos seres ao longo de sua vida.

Nota: John Houseman, que na RKO deu a primeira chance a Nicholas Ray e foi um dos produtores mais criativos de Hollywood recorda (em Cahiers du Cinema, 143) que o filme foi conservado 3 anos nos arquivos da firma, assim como The set-up de Robert Wise. “Finalmente, quando Hughes decidiu vender a companhia, tiraram estes filmes dos arquivos e os colocaram no mercado”. They live by night foi completamente ignorado em sua primeira estréia americana como um filme B, e só foi realmente conhecido bem mais tarde, graças à TV. Neste ínterim, porém, a Europa havia descoberto o filme e Nicholas Ray. É preciso acrescentar que, apesar de algumas superficiais semelhanças de roteiro, o filme não tem nada a ver com You only live once (que Ray não tinha ainda visto na época) nem com Gun crazy (Joseph Lewis, 1948). Remake sob o título Thieves like us por Robert Altman em 1974.

Jacques Lourcelles, Dictionnaire du cinéma - Les films

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