sexta-feira, 23 de março de 2012




“Pouco me importavam aqueles sentimentos de degradação simiesca que me faziam ver com os meus olhos apertados a imagem do meu declínio. Ela aproximava-se da nudez da minha mãe, do inferno em que escolhera viver; ou talvez de não mais respirar, de não mais viver. Retomava por vezes as mais degradantes imagens de meu pai, despia-me e exclamava: «Deus do terror: és assim tão baixo que nos conduzes, que nos conduziste, a minha mãe e a mim...» Eu sabia, ao fim e ao cabo, que me orgulhava disso, e dizendo para comigo que o pecado do orgulho era o pior de todos, levantava a cabeça. Pois eu sabia que a honestidade que, a meu ver, o meu confessor representava, teria sido para mim a negação desse Deus de sol ofuscante, desse Deus de morte que eu procurava, e para o qual me conduziam os caminhos de desgraça de minha mãe.

Lembrei-me então dos aspectos da embriaguez de meu pai. Duvidava, por fim, do direito que me arrogara em maldizê-lo: através dele eu pertencia à embriaguez e à demência, a tudo o que o mundo encerra de mau, e do qual Deus nunca se afasta senão para o pior. Meu pai, aquele fantoche a cair de bêbedo, que às vezes os polícias recolhiam, esse meu pai, por vezes, enternecia-me: e eu chorava. Lembrava-me daquela noite na estação de Vannes e da alternativa dos momentos de calma desesperada de minha mãe, e depois subitamente do sorriso sarcástico que deformava os seus traços como se eles tivessem derretido.

Tremia, era infeliz, mas tinha prazer em me oferecer a toda a desordem do mundo. Teria conseguido não sucumbir ao mal em que a minha mãe me sufocava? Durante vários dias ela esteve fora de casa. Eu passava o tempo a destruir-me – ou a chorar -, a esperá-la.”

Georges Bataille, História do Olho e Minha Mãe

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