domingo, 4 de março de 2012


Não, estes desenhos não são aquilo por que os tomam, esboços apressados, preliminares, passageiros; o momento, assim surpreendido na sua intangibilidade, assim submetido a todas as leis: o que o distingue ainda do definitivo e do eterno?

E ouvimos dizer que são eróticos. Ah, sim, são eróticos; mas quem diz da noite de Junho que é «erótica», saturada pelo canto dos rouxinóis, num anseio quase ameaçador sob as estrelas febris? Ou quem chama «erótica» à sabedoria profunda e abençoada que tudo abarca e torna fértil, ou à alegria ou à morte ou ao dobrar dos sinos?...

Uma palavra regressa aqui à sua grandeza, ao terror e à glória: ao incomensurável.

Nestas folhas, nestas coisas, Eros, o deus, regressou para junto de nós — o Eros de Sócrates, talvez, que apesar de Fedro e do Banquete se perdera —: este tão doce e leve Eros, este espírito profundo, este amante grandioso e imodesto...

Ele tinha de tornar-se corpo; pois de que outro modo podem as artes plásticas tomar posse do espírito se todos os seus meios dependem dos sentidos, do palpável! — E quanto mais desenvolvem estes meios, quanto maior a paixão com que de si mesmas ganham consciência, tanto mais sensuais têm de tornar-se, mais é forçoso que mostrem o espírito através do corpo.

Para o criador vale ainda o que para Dante valia:

O corpo... é para ele a alma.

Rilke, sobre os desenhos de Rodin (1905)

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