segunda-feira, 12 de março de 2012


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Komako tinha mergulhado o olhar no céu puro, por cima da neve. «A ressonância é completamente diferente quando o tempo está assim». A riqueza de sonoridades, o seu poder harmônico eram, de fato, como ela o dera a entender. E que diferença, também, pelo conjunto que formava, naquela solidão íntima...no esplendor desta clara manhã de Inverno, nesta transparência de cristal, onde o cristal da música parecia soltar o seu canto vibrante e puro, até aos picos nevados das montanhas, lá longe, no horizonte. Entregue a si própria, cultivando sozinha a música neste canto perdido das montanhas, Komako não estaria penetrada, enriquecida no seu ser, com todos os recursos mágicos, as potências secretas e as virtudes desta natureza, com a qual comungava talvez mesmo sem saber? A natureza grandiosa e selvagem dos vales profundos. Não encontraria ela, na sua própria solidão, a força triunfal de uma vontade selvagem e que lhe permitia dominar até as próprias mágoas? ...Komako estava a tocar a sua terceira peça, o Miyakadori. E Shimamura, sem dúvida sob o efeito acariciante daquela música voluptuosa e terna, Shimamura, em quem a corrente elétrica se havia acalmado para deixar correr nele um estranho calor, Shimamura, penetrado por um sentimento profundo de intimidade física, ergueu os olhos para Komako e contemplou o seu rosto.

Yasunari Kawabata

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