segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012



«Um dia, ao regressar da casa de banho, dei com a porta do meu quarto fechada à chave e as minhas coisas empilhadas diante da porta. Vejam lá como eu tinha prisão de ventre nessa época. Era a ansiedade que me provocava prisão de ventre, acho eu. Mas será que eu tinha realmente prisão de ventre? Não creio. Calma, calma. E no entanto devia ter, porque como explicar de outra maneira essas longas, essas atrozes permanências nas retretes, nos W.C.? Onde eu não lia nunca, nem aí nem noutros lugares, não sonhava nem refletia, olhava vagamente para o almanaque suspenso de um prego diante dos meus olhos em que se via a imagem a cores de um jovem barbudo rodeado de carneiros, devia ser Jesus, separava as nádegas com as mãos e soltava, um! hã! dois! hã!, com movimentos de remador, e o meu único desejo era ir para o quarto e deitar-me. Era mesmo prisão de ventre, não era? Ou será que confundo com diarreia? Tudo se mistura na minha cabeça, cemitérios e casamentos e as diferentes espécies de fezes.»
 
Samuel Beckett, O Primeiro Amor

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