quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012


"Sabe-se muito bem que há poucas paisagens, no mundo, mais fascinantes que as avenidas Hyde Park numa bela tarde de junho. E essa era exatamente a opinião de duas pessoas que, num lindo dia do começo daqueles mês, há quatro anos, achavam-se instalados à sombra das grandes àrvores, em duas cadeiras de ferro (das grandes, de braços, pelas quais, se não me engano se pegam dois pence.) Tinham atrás de si o lento desfile pelo caminho do parque, os rostos voltados para a agitação mais vívida da avenida. Estavam perdidas na multidão de observadores e perteciam, pelo menos aparentemente, à classe de pessoas que, onde quer que se encontrem, fazem parte mais dos espectadores do que do espetáculo. Eram figuras tranqüilas, simples, idodas e de aspecto algo neutro; o leitor muito as teria apreciado, embora dificilmente as houvesse observado. E no entanto, em toda aquela brilhante multidão, é a elas, gente obscura, que devemos dispensar atenção. Pedimos ao leitor que tenha confiança; não lhe solicitamos que faça desnecessárias concessões. Havia no rosto de nossos amigos a indicação de que estavam envelhecendo juntos e de que (se isso era uma condição) apreciavam a companhia um do outro o suficiente para não julgá-la desagradável. O leitor terá adivinhado que se tratava de marido e mulher; e, já que compreendeu isso, talvez tenha percebido que eram de nacionalidade que, no auge da estação, Hyde Park apresenta de mais representativo. Eram desconhecidos, mas eram sempre vistos, por assim dizer; e pessoas ao mesmo tempo tão bem instaladas e tão desligadas das demais só poderiam ser americanas. Essa reflexão, na verdade, só poderia fazer após certa demora, pois é preciso confessar que traziam, na superfície, poucos sinais patrióticos. Tinham idéias próprias de americanos; isso, porém, era muito sutil, e aos nossos olhos – se cuidássemos em olhar – poderiam ser descendentes de ingleses, ou mesmo de outros europeus. Era como se lhes conviesse passar despercebidos; sua conversação era expressiva. Não muito animada, antes um tanto sombria e monótona. Se estavam interessados nos cavaleiros, nos cavalos, nos transeuntes, na grande exibição da riqueza, saúde, luxo e lazer, isso era porque tudo aquilo se referia a outras impressões, pois tinham solução para tudo o que necessitasse resposta – porque, em suma, podiam fazer comparações. Não tinham chegado, mas apenas voltado; e o conhecimento que tinham de tudo aquilo, mais que a surpresa, estava expresso em sua contemplação serena.
(...)

Nossos amigos davam as costas, como dissemos, para a solente revolução de rodas e a massa muito congestionada do público que havia escolhido aquela parte do espetáculo. Os espectadores foram todos agitados por um impulso: o recuo de cadeiras, o arrastar de pés, o farfalhar de vestidos e o murmúrio abafado de vozes o exprimiam suficientemente. Sua Alteza aproximava-se; Sua Alteza estava passando; Sua Alteza havia passado. Freer virou a cabeça e escutou um pouco; mas não alterou demasiadamente sua posição. A esposa não prestou atenção àquele pequeno tumulto. Ambos haviam visto figuras da realeza em toda a Europa, e sabiam que passavam muito depressa. Às vezes voltavam; outras, não; em mais de uma ocasião, tinham-nas visto passar pela última vez. Eram turistas veteranos e sabiam, perfeitamente, quando deviam levantar-se e quando deviam permanecer sentados. O Sr. Freer continuou com sua idéia:

- Algum jovem certamente há de aparecer, e uma das moças certamente aceitará o risco. Aqui, elas têm cada vez mais de aceitar riscos..."

Henry James, Lady Barberina

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