terça-feira, 28 de fevereiro de 2012


"Meu Deus, como pude sequer pensar isso? Como pude ficar tão cego, quando tudo já estava tomado por outro e nada era meu, quando, enfim, mesmo essa sua ternura, sua solitude, seu amor... sim, seu amor por mim não era nada mais que a alegria do próximo encontro com o outro, o desejo de impor-me também sua felicidade? Como ele não apareceu, e nós o aguardávamos em vão, ela franziu o cenho, ficou tímida e temerosa. Todos os seus movimentos, suas palavras, ficaram menos suaves, joviais e alegres. Mas, coisa estranha, ela redobrou sua atenção para comigo, como se instintivamente desejasse derramar sobre mim o que desejava para si mesma, por temer que aquilo não se realizasse. Minha Nastenka estava agora tão intimidada e apavorada, que tinha compreendido enfim que eu a amava, e sentiu pena do meu pobre amor. Pois quando estamos infelizes, sentimos mais agudamente a infelicidade alheia; o sentimento não se dispersa, mas concentra-se.

Eu tinha vindo a ela com o coração transbordante, e mal podia esperar a hora do encontro. Não imaginava o que iria sentir nesse instante, nem pressenti que tudo terminaria daquele modo. Ela estava radiante, aguardava uma resposta. A resposta era ele mesmo. Ele deveria vir, acudir ao seu chamado. Ela chegou uma hora antes de mim. No começo ria por qualquer motivo. Comecei a falar, mas de súbito calei-me.

- Sabe por que estou tão contente? - perguntou - e me alegra tanto vê-lo? Sabe por que eu o amo tanto hoje?

- Por quê? - perguntei, e meu coração estremeceu.

- Amo você tanto por não ter se apaixonado por mim! Outro, em seu lugar, teria começado por me perturbar e importunar, e teria suspirado e sofreria de amor. Mas você é tão amável!"

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