quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012


"Mas Maria, perdida no mundo de fantasia das revistas femininas, fitando entre suspiros as imagens de fogões e ferros de engomar elétricos, de aspiradores e máquinas de lavar automáticas, só tinha de fechar a revista e olhar em seu redor: as cadeiras duras, os tapetes puídos, as salas frias. Só tinha de examinar as palmas das mãos, calejadas pela tábua de lavar, para compreender que não era, no fim de contas, uma mulher americana. Nada nela, nem a pele, nem as mãos, nem os pés, nem a comida que comia ou os dentes com que mastigava, nada, absolutamente nada, a fazia sentir qualquer ligação às «mulheres americana.
 
No fundo, Maria não precisava de livros nem revistas. Tinha o seu próprio meio de evasão, o seu caminho privado para a satisfação: o rosário. Aquela fiada de contas brancas, os minúsculos elos gastos em alguns pontos e unidos por fios de linha branca que por sua vez se rompiam com frequência, era, conta após conta, o seu modo discreto de escapar ao mundo. Ave Maria cheia de graça, o senhor é convosco. E Maria seguia o rosário. Conta após conta, a vida e os vivo ficavam para trás. Mergulhava num sonho acordado, embalada por uma paixão sem corpo, por um amor eterno que entoava a melodia da crença. Maria estava longe; era livre, já não era a Maria, americana ou italiana, pobre ou rica, com ou sem máquinas de lavar automáticas e aspiradores elétricos; chegara à terra de todos os bens. Ave Maria, Ave Maria, interminavelmente, mil e cem mil vezes, oração a oração, o corpo adormecido, o espírito ausente, a morte da memória, o alívio da dor, o profundo e silencioso devaneio da fé. Ave Maria, Ave Maria. Era a razão da sua vida."

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