sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

“A princesinha sentou-se, apanhou um novelo de lã vermelha e, indicando-me uma cadeira à sua frente, desamarrou cuidadosamente o novelo e o colocou nas minhas mãos. Tudo isso ela fazia calada, com uma divertida vagarosidade e com o mesmo olhar claro e malicioso, o meio sorriso nos lábios um pouco entreabertos. Ela começou a enrolar a lã sobre um cartão dobrado e de súbito me iluminou com um olhar tão radioso e rápido que sem querer baixei os olhos.

Quando os olhos dela, quase sempre meio apertados, abriram-se em todo o seu tamanho, seu rosto mudava completamente: como se uma luz se derramasse sobre ele.

-O que pensou de mim ontem msiê Voldemar? - perguntou ela após pequena pausa. - Decerto o senhor me condenou?

- Eu... princesa... eu não pensei nada... como posso eu... - respondi, encabulado.

- Escute - replicou ela - , o senhor ainda não me conhece: eu sou estranhíssima, quero que me digam sempre a verdade. O senhor, como ouvi, tem dezesseis anos, e eu, vinte e dois; está vendo, sou bem mais velha, e por isso o senhor deve sempre me falar a verdade, e me obedecer - acrescentou. - Olhe para mim, por que não olha para mim?

Fiquei ainda mais atrapalhado, mas levantei os olhos para ela.

Ela sorriu, mas não com o sorriso anterior, e sim com outro, aprovador.

Olhe para mim - disse ela, baixando carinhosamente a voz -, para mim isso não é desagradável ... O teu rosto me agrada, pressinto que nós seremos amigos. E eu, agrado-te? - acrescentou, maliciosamente.

- Princesa... - fui começando.

- Em primeiro lugar, me chame Zinaída Alexándrovna, e, em segundo, que costume é esse de as crianças (ela se corrigiu), os jovens não dizerem diretamente o que sentem? Isso é bom para os adultos. Mas e eu, agrado-te?

Embora me fosse muito agradável que ela falasse tão francamente comigo, mesmo assim fiquei um pouco ofendido. Queria lhe mostrar que ela não estava tratando com um menino e, assumindo na medida do possível, uma expressão desembaraçada e séria, falei:

- É claro, a senhora me agrada muito, Zinaída Alexándrovna. Não quero esconder isso.

Ela balançou lentamente a cabeça.

- O senhor tem um preceptor? - perguntou ela de repente.

- Não, já não tenho preceptor há muito tempo.

Eu mentira, não passara nem um mês que eu me separa do meu francês.

- Oh, mas estou vendo, o senhor já é bem grande!

Ela me bateu de leve nos dedos.

- Mantenha as mãos direitas - e ela começou a se ocupar diligentemente com o novelo.

Aproveitei-me do fato de que ela não levantava os olhos e me pus a examiná-la, primeiro disfarçadamente, depois com mais e mais ousadia. O seu rosto me parecia ainda mas encantador do que na véspera. Tudo nele era fino, inteligente e gracioso. Estava sentada de costas para  a janela, velada por um cortina branca; um raio de sol varando essa cortina inundava de luz suave os cabelos fofos e dourados, seu pescoço inocente, seus ombros arredondados e seu peito delicado e tranqüilo. Eu olhava para ela - e como ela se tornava querida e próxima!".

Primeiro Amor, Ivan Turguêniev

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