quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Passaram dois anos. Um dia, quando Skvortsov comprava um lugar na bilheteria de um teatro, viu junto de si um homem pequeno, com uma gola de astracã no seu sobretudo e um gorro de lontra usado. O homem pediu um bilhete para as galerias e pagou em moedas de cobre.

- É você, Luchkov? Perguntou Skvortsov reconhecendo o seu antigo rachador de lenha. – Então? O que tem feito? Corre tudo bem?

- Menos mal. Trabalho agora no escritório de um notário; ganho trinta e cinco rublos, senhor.

- Deus seja louvado, ainda bem. Estou muito, muito contente, Luchkov. Você é para mim como um afilhado. Fui eu quem o empurrei para o bom caminho. Lembra-se como o repreendi, hein? Você quase se meteu pelo chão abaixo! Bom, meu caro, obrigado por não ter esquecido as minhas palavras.

- Obrigado igualmente – disse Luchkov. – Se não tivesse ido a tua casa, ainda me intitularia professor ou estudante... Sim, foi em tua casa que me salvei, que fui tirado para fora do precipício...

Estou muito, muito contente.

- Obrigado pelas boas palavras e pelas decisões. Deu-me bons conselhos. Estou-lhe muito reconhecido, assim como à sua cozinheira. Que Deus proteja essa boa e nobre mulher. O senhor disse-me, na altura, exatamente o que era preciso. Ficar-lhe-ei decerto agradecido até ao fim dos meus dias; mas para dizer a verdade foi a tua cozinheira quem me salvou.

- Como assim?

- Eis o que se passou. Quando vinha a tua casa partir lenha, Olga começava: “Ah! Maldito borracho, a morte não quer nada contigo”. E “Desgraçado de ti. Não conheces a felicidade neste mundo nem no outro, pobre bêbado, serás pasto das chamas do Inferno. Infeliz de ti”, e assim por diante. Quanto se preocupou comigo, quantas lágrimas chorou por mim, não sabarei dizer. Maso principal é que partia a lenha em meu lugar. Não parti uma única acha em sua casa; era Olga quem o fazia. Por que razão me salvou, por que motivo me modifiquei, enquanto a contemplava, e deixei de beber? Não sei explicar-te... Sei apenas que, graças às suas palavras e aos seus nobres atos se operou no meu íntimo uma transformação. Corrigiu-me e nunca o esquecerei. Mas é altura de entrarmos, ouço a campainha.

Luchkov cumprimentou e dirigiu-se para as galeria.

Anton Tchekhov, excerto de O Mendigo.

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