sexta-feira, 25 de novembro de 2011

"Oh, Nástienka, Nástienka! A senhorita sabe que reconciliou por muito tempo comigo mesmo? Sabe que agora já não penso tão mal de mim mesmo como pensava em certos momentos? Sabe que, talvez, eu já não vá mais sofrer por ter cometido um crime ou um pecado, pois uma vida assim é um crime e um pecado? E não pense que exagerei algo; pela graça de Deus, não pense isso, Nástienka, porque às vezes eu sou tomado por momentos de tanta tristeza, de tanta tristeza... Porque nesses momentos me parece que jamais serei capaz de começar a viver uma vida autêntica; porque já me parecia que eu tinha perdido o tato, toda noção do autêntico, do real; porque, enfim, eu maldizia a mim mesmo; porque logo depois das minhas noites fantásticas eu sou logo tomado por terríveis momentos de desilusão! Entretanto, sente-se que ao redor gira e ressoa uma multidão de pessoas no turbilhão da vida; sente-se, vê-se como as pessoas vivem: vivem de verdade; vê-se que a vida para elas não é proibida, que a vida delas não se dissipa como um sonho, como uma visão; que a vida delas se renova eternamente, é eternamente jovem, e que nenhuma de suas horas se assemelha a outra, ao passo que é triste e monótona até à vulgaridade a fantasia tímida, escrava de uma sombra, de uma ideia, escrava da primeira nuvem que cobrir de repente o sol e oprimir de tristeza o autêntico coração petersburguense, que tanto aprecia o seu sol - e que fantasia pode haver na tristeza! Sente-se que ela, essa fantasia inesgotável, finalmente se cansa, enfraquece numa tensão eterna, pois você amadurece e abandona os seus antigos ideais: estes se desfazem em pó, em pedaços; se não há outra vida, então é preciso construí-las a partir desses pedaços. E no entanto, é outra coisa que a alma pede e quer! E em vão o sonhador remexe, como que nas cinzas, em seus velhos sonhos, procurando nessas cinzas ao menos uma centelha para soprá-la e, através do fogo renovador, aquecer o coração esfriado e ressuscitar novamente nele tudo o que antes era tão belo, que tocava a alma, que fazia o sangue fervilhar, que arrancava lágrimas dos olhos e que iludia com tanta perfeição! Sabe a que ponto cheguei, Nástienka? Sabe que já estou obrigado a celebrar o aniversário das minhas sensações, o aniversário daquilo que era tão belo, daquilo que na verdade nunca aconteceu - porque esse aniversário é celebrado em memória daqueles mesmos sonhos tolos e incorpóreos -, e devo fazer isso porque esses sonhos tolos não existem, pois não há nada para substituí-los, e os sonhos devem ser substituídos!".

Noites Brancas - Dostoiévski.

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