sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Bernard: O que acha dos mestres?

Cézanne: São bons, eu ia ao Louvre todas as manhãs quando estava em Paris.  Mas acabei apegando-me mais à natureza do que a eles. É preciso aprender a ver por si mesmo.

Bernard: O que quer dizer com isso?

Cézanne: Devemos criar uma ótica, devemos ver a natureza como ninguém viu antes.

Bernard: Não resultará isso, numa visão demasiado pessoal, incompreensível aos outros? Afinal de contas, não é a pintura como a fala? Quando falo, uso a mesma língua que você. Será que me compreenderia se eu tivesse criado uma língua nova, desconhecida? É com esta língua comum que devemos expressar novas ideias. Talvez seja este o único meio de torná-las válidas e aceitáveis.

Cézanne: Por ótica quero dizer uma linguagem lógica, isto é, sem nada de absurdo.

Bernard: Mas em que baseia sua ótica, Mestre?

Cézanne: Na natureza.

Bernard: O que quer dizer com esta palavra? Trata-se de nossa natureza ou da natureza em si?

Cézanne: Trata-se de ambas.

Bernard: Portanto, o senhor concebe a arte como união do Universo como indivíduo?

Cézanne: Concebo-a como uma percepção pessoal. Coloco esta percepção na sensação e peço que a inteligência a organize numa obra.

Bernard: Mas de que sensações o senhor fala? Daquelas que estão em seus sentimentos ou daquelas que provêm da sua retina?

Cézanne: Acho que não pode haver separação entre elas. Além disso, sendo pintor, apego-me primeiro à sensação visual.

Une conversation avec Cézanne, reconstituição de diálogo entre Cézanne e Benard, publicado em 1921.

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