quinta-feira, 24 de novembro de 2011

24 DE MAIO DE 1931

"Começa a fazer tempo bom e calor. Pela manhã, conversa e aperitivo com o comandante. Ele nos conta que os kruman da embarcação têm o costume, quando querem combater a febre, de introduzir uma pimenta no ânus. Por outro lado, a pimenta é um dos elementos essenciais da alimentação deles. Também nos disse que, em determinados portos africanos, para combater o alcoolismo, proibiu-se até a importação de álcool inflamável.

À tarde, grande sessão de engraxar botas e sapatos sobre o convés, torrando ao sol. Estamos agora ao largo da costa do Marrocos. Alguns sinais de regiões quentes: surgem baratas nas paredes; durante o almoço, algumas formiguinhas passearam pela toalha de mesa e subiram no pão. À tarde, avisto águas-vivas de cristas violetas deslizando ao longo do casco do navio. Passei a noite com Griaule, no castelo da proa, conversando; ele deitado, eu sentado, olhando a roda da proa, o céu, a espuma etc. Lembrança de uma canção: Nous partons pour le Mexique/ Nous mettons la voile au vent..." (Em tradução livre: Partimos para o México, zarpamos a todo vapor).

23 DE JULHO DE 1931

"Sonhei que uma de minhas apreensões se realiza e que começo a ficar careca de verdade. O que se manifesta pela formação, sobre a parte direita de minha cabeça, um pouco à frente do occipício, de um lugar descoberto que, visto de perto, se revela arenoso e pedregoso, com um pequeno oco que posso escarafunchar com o indicador, como escarafuncharia uma escavação arqueológica, e cuja forma alongada me faz lembrar um sarcófago... Griaule, por sua vez, febril, sonhou outra noite que deveria levar leões a um museu.

Afora isso, chuva e 99% de umidade no higrômetro. Larget – com quem saímos em busca de outras lapas e outras grutas e que, mais uma vez, descobre grafites – me fala de geologia e paleontologia. Para mim, o martelo que leva eternamente à mão e seu jeito desengonçado evocam sempre o velho mineiro de Goethe, Zacharias Werner, ou então Wilhelm Oken, a teoria netuniana e os Naturphilosophen do romantismo alemão".

30 DE ABRIL DE 1932

"O motorista, que passou a noite com amigos, está completamente bêbado. É preciso impedi-lo de fazer qualquer coisa, pois quebraria tudo. A volta sem pneus de reserva é muito inquietante: com um pouco de azar, o menor contratempo poderia nos deter por dois ou três dias. Felizmente, tudo corre bem. Tivemos de parar com freqüência, o bêbado sentia vontades incessantes de mijar e se queixava com voz pastosa em abissínio…

Agora, a carniça de camelo foi abandonada pelos abutres. Está completamente limpa. Restaram apenas os ossos.

Choveu ontem. O caminho está bastante enlameado. Quando as chuvas se instauram isso deve virar um senhor lamaçal!

Griaule envia um novo telegrama a Adis Abeba, informando que a alfândega de Gallabat ignora tanto os vistos de entrada como os telegramas em francês que nos foram enviados. À noite, tornados ameaçadores. Céu, mais do que nunca, carregado de nuvens hipertrofiadas. Veios de raios. Farrapo de céu cor de enxofre ou azul metálico. Muito suor e pouca chuva orvalham em gotículas. Subi romanticamente no terraço para ver a procissão de tempestades avançar; desci para jantar."

14 DE SETEMBRO DE 1932

"Não pude manter atualizado este diário nos últimos três dias. Ocupado demais, vi coisas demais.

Faltou pouco para eu ser privado do sacrifício a Abba Moras Worqié, sobrevindo um drama familiar (rapto de uma moça, seguido de briga, ou ameaça de briga) domingo, na casa de Emawayish, em Qeddous Yohannès, seu bairro. Mas apesar do transtorno provocado pelo acontecido, o sacrifício foi realizado segunda-feira de manhã, como combinado. Vi Emawayish em transe fazer o giro com a cabeça e o balanceio pendular com o tronco, que constitui o gourri. Eu a ouvia, com uma voz mais grave do que a habitual, declamar o tema de guerra de Abba Moras Worqié, entremeado de rugidos. Eu a vi beber sangue. Eu até a vi sentada, a cabeça coberta com o peritônio e o intestino enrolado ao redor da testa; depois, indo do meio da sobrancelha até a nuca, em forma de crista – véu delicado e cimeira orgulhosa resplandecendo na penumbra, com um brilho um pouco azulado, lembrando a cor de suas gengivas, pintadas à abissínia, em cima, com dentes cor de leite. Eu nunca sentira a que ponto era religioso, mas de uma religião em que é necessário que me mostrem o deus... ".

26 DE DEZEMBRO DE 1932

[...] “Idéia de um conto, cujos elementos seriam tomados de empréstimo, no sentido mais amplo, da presente realidade. Uma personagem do gênero Axel Heyst. Igualmente gentleman, porém menos endinheirado. Muito mais tímido, ainda mais reservado. Atenção meticulosa que dedica ao vestuário. Uma mancha na roupa branca o enlouquece. Mesmo impecavelmente vestido, parece ter sempre vergonha. Perfeição de suas toalhas de mesa e de seus guardanapos. De ordinário, é calado. Muito raramente (do nada ou se toma alguns uísques) se anima. Portanto, fala com um tom frio e arrogante, tratando os assuntos sexuais com uma espécie de cinismo que também pode ser uma forma de objetividade científica. Exerce uma atividade qualquer numa colônia qualquer. Não é sociável, mas é capaz, como Axel Heyst, de ser obsequioso. Uma só vez, ele se permitiu um pouco; numa conversa, durante um jantar de homens, disse rindo que as questões sexuais não lhe interessavam pessoalmente, dado que é impotente. Essa brincadeira agradou muito. Axel Heyst agora passa por ser capaz de se mostrar, de acordo com as circunstâncias, um companheiro jovial. Como nunca se soube da existência de mulheres, acredita-se que seja homossexual; o cinismo de algumas de suas palavras pode ter contribuído para isso. Por outro lado, diz com muita naturalidade que as mulheres não são necessárias, pois existe a masturbação. Alguns dizem que não é “homem”: não faz nada, não caça, é muito mole com os indígenas, se atormenta com muita facilidade. Entretanto, em circunstâncias graves, chegou a mostrar sangue-frio. Até aqueles que mais o denigrem, lhe concedem alguma dignidade. Mas é certo que não gostam dele. O único homem a quem está um pouco ligado é o médico, com quem conversa muitas vezes sobre ciências naturais e etnografia. Mas, com o médico, não passa disso. Nunca é cínico e evita cuidadosamente tudo que possa estar relacionado à sexualidade e à psicologia.

Um belo dia, uma novidade corre a colônia: há uma mulher em sua vida. À noite, um moleque viu uma indígena entrar na casa dele e sair alguns minutos depois. Mas nada na atitude de Axel Heyst permitiria supor que algo tenha mudado. Ainda freqüenta o doutor com muita regularidade, ou vai jantar na casa dele ou o convida para jantar. Uma noite, o doutor está pronto para dormir quando Axel Heyst chega, desculpando-se muito. Segura o lenço como tampão sobre a testa, perto da têmpora, e o lenço está manchado de sangue. O doutor pergunta o que acontece. Um pouco constrangido, Axel Heyst responde que se feriu ao descarregar o revólver. Bastante confuso, diz, abaixando os olhos e sorrindo, que o conhecem bem na colônia, que não é caçador nem soldado, que não tem o hábito das armas, que é muito desajeitado etc. O doutor faz um curativono ferimento – que é superficial –, manda-o embora.

Algumas semanas depois, o doutor vem a saber que Axel Heyst – que deveria ir à Europa em férias – não viajou. Durante todo esse tempo, ele saiu muito pouco. Como também partirá em viagem, o doutor quer se despedir de Heyst; passa várias vezes na casa dele, mas não o encontra. Finalmente, embarca sem o ver. Conhecendo Heyst, tão educado, não é capaz de conter certo mau humor” [...]

Michel Leiris, África Fantasma

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