domingo, 18 de setembro de 2011

OS PRIMEIROS INSTANTES

Víamos correr a nossos pés a água crescente. De um só
golpe, elidia a montanha, expulsando-se dos flancos maternos. Não era uma torrente que seguia seu destino, mas uma
fera inefável de quem nos tornávamos a substância e a
palavra. Ela nos mantinha amorosos no arco poderoso de sua imaginação. Mas que interferência nos podia ter coagido? A
modicidade diária fugira, o sangue expelido reencontrava seu calor. Adotados pelo aberto, polidos até o invisível, éramos
uma vitória que jamais teria fim.

MORO NUMA DOR

Não deixes o mando de teu coração a cargo dessas
ternuras parentes do outono de quem emprestam a mar-
cha mansa e sua afável agonia. O olho é precoce ao
dobrar-se. O sofrimento poucas palavras conhece. Pre-
fere deitar-te sem peso: sonharás no amanhã e teu leito
será leve. Sonharás com tua casa sem vidraças. Anseias
por te unir ao vento, ao vento que percorre um ano numa
noite. Outros cantarão a incorporação melodiosa, as
carnes que não personificam mais que a feitiçaria da
ampulheta. Condenarás a gratidão que se repete. Mais
tarde, serás confundido com algum gigante em desa
linho, senhor do impossível.
No entanto.
Só fizeste aumentar o peso de tua noite. Estás de volta à
pesca das muralhas, a canícula sem verão. Estás furioso com
teu amor no centro de um acordo que enlouquece. Sonha com a
casa perfeita que jamais verás crescer. Até quando, a colheita
do abismo? Mas vazaste os olhos do leão. Crês ver passar a
beleza acima das negras lavandas…
Quem te alçou, mais uma vez, um pouco mais alto, sem te
convencer?
Não há base pura.

HOMENAGEM E FOME

Mulher que harmonizas com a boca do poeta, essa torrente
de lodo sereno, que lhe ensinaste, quando ele ainda era um
grão cativo de lobo ansioso, a ternura das muralhas polidas
com teu nome (hectares de Paris, entranhas de beleza, meu
fogo sobe sob tua roupa de fuga); Mulher dormitante no pólen
das flores, espalha em seu orgulho teu orvalho de médium
vidente, afim de que, até a hora da urze dos ossos, ele continue
a ser o homem que, para melhor te adorar, adiava indefinida-
mente em ti a alvorada de sua origem, o punho de sua dor, o
horizonte de sua vitória.
(Era noite. Nos apertávamos sob o imenso carvalho
de lágrimas. Cantar de grilo. Como sabia, solitário,
que não ia morrer, que nós, crianças sem claridade, íamos
logo falar?)

ARGUMENTO

Como viver sem o desconhecido diante de si?
Os homens de hoje querem o poema à imagem de sua vida,
feita com tão pouca atenção, tão pouco espaço e queimada de
intolerância.
Porque não lhes é mais permitido agir supremamente com
a preocupação fatal de se destruir por seu semelhante, porque
a riqueza inerte deles os freia e aprisiona; os homens de hoje,
o instinto enfraquecido, perdem, mesmo se conservando vivos,
até a poeira de seus nomes.
Nascido do apelo do futuro e da angústia da retenção, o
poema, elevando-se de seu poço de lama e estrelas, será
testemunha em quase total silêncio, que não há nada nele que
não exista verdadeiramente noutra parte, nesse rebelde e
solitário mundo de contradições

MADALE À LUZ DA LAMPARINA

Queria hoje que a erva fosse branca para pisar a evidência do
vosso sofrimento: não veria sob a vossa mão tão jovem a
forma dura, sem reboco, da morte. Num dia discricionário,
outros, apesar de menos ávidos do que eu, retirarão vossa
camisa de estopa, ocuparão a vossa alcova. Mas, quando
partirem, esquecerão de apagar a lamparina e um pouco de
óleo derramar-se-á pelo punhal da labareda sobre a impossível
solução.

René Char, Fureur et Mystère

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