quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ONIBABA, A MULHER ABUTRE

Estamos sempre atrasados em matéria de cinema. O óbvio: isto só acontece porque o Brasil é atrasado. Está em cartaz Onibaba, o Sexo Diabólico, título de Boca do Lixo que o dono do cine Coral sacou de sua cabeça sórdida para uma obra-prima de Kaneto Shindo. Realizado em 64, apogeu qualitativo do cinema japonês, o filme nos chega novo demais. Aqui esse tipo de cinema ainda não foi imaginado: continuamos por fora, pensando que cinema só se faz com milhões de dólares, ou arrancando sangue do paralelepípedo (2 ou 3 só estão nessa). Kaneto Shindu mostra como se faz um grande filme com pouco dinheiro. Sua fita não se ressente de recursos de produção. O filme tem o  mínimo para chegar a seu máximo, ao contrário das nossas obras-primas miseráveis, Kaneto Shindu não precisou usar qualquer recurso de metalinguagem. Faz o melhor cinema revolucionário apoiando-se em suas convicções, em sua atuação dentro da realidade em que vive.

Japão medieval. Uma guerra que não é só medieval: é contemporânea. Não é a guerra fixista, fato eterno na vida do homem, colocação “desengajada” de Bergman e outros metafísicos. A ambientação tem enorme poder de comunicação porque sente-se que o diretor está filmando um troço que está vivendo, em última análise que quem (nós) lê jornal sabe que é verídico. Como em Shoei Imamura ou Kobayashi, o homem (aliás, a coisa gira sobre duas mulheres) está reduzido à sua condição total: os instintos primários (em suma: a luta pela sobrevivência) jogados na circunstância histórica fazem com que o bicho humano se defina. Aí entra a colocação, a visão progressista e dialética que Shindo sempre defendeu em todos seus filmes.

Quem simpatizou com os anti-heróis assaltantes de banco em Butch Cassidy (99% da platéia) poderia ser preso na saída do cinema. Digo isso porque para quem ainda não sabe Kaneto Shindo faz um cinema marxista, e se vocês gostaram de Onibaba estão apoiando um filme feito por um contestador, um revolucionário que sabe bem o que deve ser colocado no lugar das coisas que ele derruba com total violência. Sim, meus chapas, um bom marxista quando faz boa ficção acaba convencendo até mesmo os reaças que ignoram os dados do autor. Shindo foi militante do PC japonês, escola política dos únicos cineastas japoneses que ainda desafiam o tempo.

Como mise-en-scène é o melhor filme de Shindo. Seu tema: as contradições. A contradição básica aqui é entre o instinto e a repressão. Não há fatos obscuros no filme. A história para os ocidentais literários e teatrais lembraria o absurdo, uma fábula do absurdo. Desmistificador, Shindo tira a máscara: o absurdo existe, sim, mas é gerado pela realidade social e política. O filme é japonês, oriental pacas, tudo é conduzido por um mestre da dialética cinematográfica. Daí o impacto de sua mensagem final: é na fossa total que o homem descobre que tem que dar o salto sobre o abismo, porque é aí e só aí que vai descobrir que é dotado de forças para superar a sua condição miserável. Isto é, libertar-se.Um filme perfeito, maravilhoso.

Jairo Ferreira, 26 de fevereiro de 1970

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