sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O ritmo do estilo é o que há de mais difícil de traduzir de um idioma para outro, depende do caráter da raça ou, para falar em termos mais fisiológicos, do ritmo médio de sua respiração. Há uma infinidade de traduções que foram feitas com boas intenções, mas que são quase falsificações, porque se esqueceram do caráter verdadeiro do texto original, ou de seu tom vigoroso e alegre, que ajuda a sobrevoar tantas coisas e palavras perigosas. A língua alemã está praticamente incapacitada de apresentar um "presto" na própria língua, disso podemos deduzir sem nenhum temor de equivocar-se que o alemão não pode empregar os matizes mais alegres e audazes, próprios de um espírita livre e independente, como se poderia dizer, do mesmo modo, que não possuem em seu corpo e sua consciência nada do saltimbanco ou do sátiro; mas também não sabiam traduzir a Aristófanes ou Petrônio. Encontram-se entre os alemães com toda prolixidade, tudo que há de gravidade majestosa, de pesadume, de pompa solene, todos os gêneros intermináveis e enfadonhos. Seria perdoável se eu afirmasse que a prosa de Goethe, com seu misto de gravidade e de elegância, não constitui uma exceção? Sua prosa é o espelho do "bom tempo antigo" ao qual pertencia e a expressão do gosto alemão, num tempo em que ainda existia um "gosto alemão", o do barroco, in moribus et artibus. Lessing representa uma exceção graças à sua natureza de comediante que compreendia muitas coisas, ele, que não por acaso foi tradutor de Bayle e que gostava de refugiar-se nas paragens de Diderot e Voltaire, mais gosto ainda encontrava nos autores cômicos antigos. Lessing gostava da independência até no ritmo de seu estilo, era seu modo de evadir-se da Alemanha. Porém, como poderia a língua alemã, ainda que através da prosa de um Lessing imitar o ritmo de um Maquiavel, que em seu Príncipe nos faz respirar o ar seco e sutil de Florença e que coloca mesmo as mais graves questões em allegríssimo, talvez com um delicioso prazer de atrever-se a esse contraste, pensamentos grandes, pesados, perigosos, apresentados sob um ritmo de galope do mais insolente bom humor? Quem se atreveria, afinal, traduzir Petrônio para o alemão, o qual mais que qualquer outro grande músico é o virtuoso do presto tanto por seus rodeios e sutilezas quanto pelo seu vocabulário? Que importam, finalmente, todas as vilezas de um mundo enfermiço e perverso ainda que fossem as do mundo antigo, quando se galopa, como ele, nas asas do vento, com o ímpeto, o sopro e a ironia libertadora de um furacão que vivifica todas as coisas? Quanto a Aristófanes, esse espírito que transfigura e completa a antiguidade e por amor ao qual se pode perdoar ao helenismo por ter existido (supondo que se tenha compreendido radicalmente tudo o que deve ser perdoado e transfigurado), não sei de nada que tenha feito com que eu sonhasse tanto acerca da natureza enigmática de Platão, como esse pequeno fato que tão felizmente nos foi transmitido; sob a almofada de seu leito funerário não se encontrou nem "Bíblia", nem escrito egípcio, pitagórico ou platônico, mas um exemplar de Aristófanes. Como Platão teria suportado aquela vida grega à qual dizia não — sem Aristófanes?

Nietzsche

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