domingo, 18 de setembro de 2011

CONSOLAÇÃO

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco
importa aonde vai no tempo dividido. Já não é
meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se
recorda. Quem de fato o amou?

Procura o seu igual no voto dos olhares. O espaço
que percorre é a minha fidelidade. Ele desenha a
esperança e ligeiro despede-a. Ele é
preponderante sem tomar parte em nada.

Vivo no seu abismo como um feliz destroço. Sem
que ele saiba, a minha solidão é o seu tesouro.
No grande meridiano onde inscreve o seu curso é
a minha liberdade que o escava.

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco
importa onde vai no tempo dividido. Já não é
meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se
recorda. Quem de fato o amou e de longe o
ilumina para que não caia?

A VIDRAÇA

Chuvas puras, esperadas mulheres,
O rosto que lavais,
De vidro condenado aos sofrimentos,
É o rosto do revoltado;
O outro, fremindo ao fogo da lareira,
É a vidraça do afortunado.

Vos quero bem, ó dúplice mistério,
A um e outro estou ligado;
Dói-me tanto e me sinto bem.

FIZESTE BEM EM PARTIR,
ARTHUR RIMBAUD!

Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Teus
dezoito anos refratários à amizade, à malevolência, à
bobeira dos poetas de Paris,
assim como ao zunzum de abelha estéril de tua
família ardenesa um pouco doída, fizeste bem
espalhá-los aos quatro ventos, em jogá-los sob a
lâmina de sua guilhotina precoce. Tiveste razão
em abandonar o bulevar dos preguiçosos, os
botequins, os mija-liras, pelo inferno das feras,
pelo comércio dos espertos e o bom-dia dos
simples.

Este impulso absurdo do corpo e da alma, esta
bala de canhão que explode seu alvo, sim, é isso
mesmo a vida de um homem! Não se pode,
indefinidamente, saindo da infância, estrangular
seu próximo. Se os vulcões mudam pouco de
lugar, sua lava percorre o grande vazio do mundo
 levando virtudes que cantam em suas feridas.

Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Ainda há
 quem creia, sem provas, que contigo a felicidade
é possível.

FREQÜÊNCIA

O dia todo servindo ao homem, o ferro aplicou o
torso sobre a lama inflamada da forja. Com o
tempo, as curvas gêmeas de suas pernas
rebentaram a fina noite do metal espremido sob
a terra.

Sem pressa, o homem deixa o trabalho. Mergulha
uma última vez os braços no flanco sombrio do rio.
Agarrará enfim o bordão gelado das algas?

René Char,  Fureur et Mystère

Arquivo do blog

Seguidores