terça-feira, 13 de setembro de 2011

CINEPHILIE 3

"É raro que um cineasta possa fazer tudo, escrever, realizar, produzir, controlar seu filme de ponta a ponta. E quando ele consegue (os exemplos existem em todos os tempos), não é ele levado a descansar sua atenção em algum canto, obrigado que é a vigiar tantas coisas ao mesmo tempo? O cineasta hollywoodiano da nossa (auspiciosa) época não tinha esses problemas: posto em ação por uma máquina bem oleada, todo o seu trabalho consistia em obedecer, a realizar o que lhe diziam para realizar, ou a desobedecer. Ou seja, para um artista perverso (ou um artesão – não importa o nome), a questão se tornava mais sutil: se tratava de fingir fazer e entregar o pedido, embora insistindo – havia a vontade, a obstinação, a sequência de idéias – em reservar para si, no interior dos limites impostos, algumas zonas francas onde poderia insinuar alguma coisa de diferente, alguns elementos do filme – considerados como menores, ou inapercebidos pelos patrocinadores – sobre os quais era possível, abrigado, sob os olhos cegos dos patrões apressados, um trabalho de toupeira, preciso, lógico, anônimo. Enquadrado de todos os lados e deixado de lado da liberdade de expressão, o metteur en scène podia, se tivesse o desejo – e é este desejo, insano, inútil e vão, um desejo por nada, um desejo por tudo, um desejo de dizer sem dizer, de fazer sem fazer, de estar noutro lugar estando ali, de se exprimir sob pressão, sob a opressão, um desejo derrisório de querer fazer obra, de querer fazer boa imagem e bom coração contra a má fortuna, um desejo de dizer, um desejo que é freqüentemente formulado por fazer um pouco mais que a parte imposta de seu trabalho, um desejo de se expor a riscos, de expor alguma parte, de arriscar alguma coisa, é este desejo que desapareceu, que desaparece do cinema – sim, o metteur en scène podia se ele tivesse o desejo – e talvez agora ele não pode mais – ele podia trabalhar no sublime, na cinzelagem de um detalhe ou na colocação de um olhar, na iluminação de um gesto ou o fluxo do diálogo, na ordenação delicada de uma cena, na menor das coisas: ele podia deixar o seu."

Louis SKORECKI

Tradução: Matheus Cartaxo

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