domingo, 18 de setembro de 2011

(...) A rua Boileau, normalmente provinciana e tranqüila, está branca de geada, mas procuro em vão o rastro das estrelas no céu. Olho de soslaio para a jovem: “Como te chamas, minha filha? – Madalena.” A bem dizer o seu nome não me surpreendeu. Tinha acabado à tarde Madalena de Vigília, inspirado no quadro de Georges de La Tour cuja questionação é tão atual. Foi um poema que me deu muito trabalho. Como não entrever, nesta passante teimosa, a sua demonstração? Já por duas vezes, com outros poemas particularmente difíceis, me aconteceu idêntica aventura. Não me custa nada acreditar. O acesso a uma camada profunda de emoção e visão é propício ao aparecimento do grande real. Não é possível atingi-lo sem agradecimento do oráculo. Não me parece que seja absurdo afirmar isto. Não sou o único a quem estas provas raras são por vezes concedidas. “ Madalena, fostes muito boa e muito paciente. Caminhemos juntos mais um pouco, está bem?” Caminhamos num perfeito entendimento de sombras. Peguei no braço da jovem e sinto as impressões causadas pela sensação de magreza. Desaparecem logo, dando apenas lugar a uma intensa solidão e ao favor extremo que senti quando pus o ponto final na escrita do meu poema. É meia noite e meia. Na avenida de Versailles a luz do Metrô Javel, pálida, emerge da terra. “Digo-vos adeus aqui.” Hesito, mas o frágil corpo liberta-se. “Beijai-me, para que eu parta feliz.” Prendo a sua cabeça nas minhas mãos e beijo-a nos olhos e nos cabelos. Madalena afasta-se, apaga-se nos degraus da escada do metrô cujas portas de ferro se vão em breve cerrar e estão já prontas.

René Char, escrito sobre o processo de criação do poema Madeleine à Luz da Lamparina

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