quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A mulher


(Deux femmes au balcon, Constantin Guys)

O ser que é, para a maioria dos homens, a fonte das mais vivas e mesmo — admitamo-lo para a vergonha das volúpias filosóficas — dos mais duradouros prazeres; o ser para o qual, ou em benefício do qual, tendem todos os seus esforços; esse ser terrível e incomunicável como Deus (com a diferença que o infinito não se comunica porque cegaria ou esmagaria o finito, enquanto o ser de que falamos só é incompreensível por nada ter a comunicar, talvez); esse ser em quem Joseph de Maistre via um belo animal cujos encantos alegravam e tornavam mais fácil o jogo sério da política, para quem e por meio de quem se fazem e se desfazem as fortunas, para quem, mas sobretudo devido a quem os artistas e os poetas compõem suas jóias mais delicadas; de quem derivam os prazeres mais excitantes e as dores mais fecundantes; a mulher, numa palavra, não é somente para o artista em geral, e para G. em particular, a fêmea do homem. É antes uma divindade, um astro que preside todas as concepções do cérebro masculino, é uma reverberação de todos os encantos da natureza condensados num único ser; é o objeto da admiração e da curiosidade mais viva que o quadro da vida possa oferecer ao contemplador. É uma espécie de ídolo, estúpido talvez, mas deslumbrante, enfeitiçador, que mantém os destinos e as vontades suspensas a seus olhares. Não é, digo eu, um animal cujos membros, corretamente reunidos, fornecem um perfeito exemplo de harmonia; não é sequer o tipo de beleza pura, tal como pode sonhá-lo o escultor nas suas mais severas meditações; não, isso não seria ainda suficiente para explicar seu misterioso e complexo fascínio. Winckelmann e Rafael não nos são de nenhuma utilidade aqui; e estou persuadido que G., apesar de toda a extensão de sua inteligência (que se diga isto sem ofendê-lo), desprezaria uma obra da estatuária antiga se tivesse que perder por isso a ocasião de saborear um retrato de Reynolds ou de Lawrence. Tudo que adorna a mulher, tudo que serve para realçar sua beleza, faz parte dela própria; e os artistas que se dedicaram particularmente ao estudo desse ser enigmático adoram finalmente todo o mundus muliebris quanto a própria mulher. A mulher é, sem dúvida, uma luz, um olhar, um convite à felicidade, às vezes uma palavra; mas ela é sobretudo uma harmonia geral, não somente no seu porte e no movimento de seus membros, mas também nas musselinas, nas gazes, nas amplas e reverberantes nuvens de tecidos com que se envolve, que são como que os atributos e o pedestal de sua divindade; no metal e no mineral que lhe serpenteiam os braços e o pescoço, que acrescentam suas centelhas ao fogo de seus olhares ou tilintam delicadamente em suas orelhas. Que poeta ousaria, na pintura do prazer causado pela aparição de uma beldade, separar a mulher de sua indumentária? Que homem, na rua, no teatro, no bosque, não fruiu, da maneira mais desinteressada possível, de um vestuário inteligentemente composto e não conservou dele uma imagem inseparável da beleza daquela a quem pertencia, fazendo assim de ambos, da mulher e do traje, um todo indivisível? Parece-me que esta é a ocasião de retomar certas questões relativas à moda e aos adereços, que apenas indiquei no começo deste estudo, e de vingar a arte do vestir das calúnias ineptas com que a atormentam certos amantes muito equívocos da natureza.

Charles Baudelaire

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