De onde saíram esses pássaros dourados de Rimbaud? E para onde voam? Não são pombos nem abutres; vivem no ar. São mensageiros particulares, gerados nas trevas e soltos na luz da inspiração. Não possuem nenhuma semelhança com as criaturas aladas nem tampouco são anjos. São pássaros raros do espírito, aves de arribação que esvoaçam de sol a sol. Não se sentem aprisionados aos poemas, é ali que são postos em liberdade. Levantam voo com as asas do êxtase e desaparecem nas chamas.
Condicionado ao êxtase, o poeta é como um deslumbrante pássaro desconhecido preso às cinzas do pensamento. Quando consegue se libertar é para fazer um vôo de imolação ao sol. Os seus sonhos de um mundo recuperado não passam de reverberações de suas próprias batidas de pulso febril. Imagina que o mundo há de segui-lo, mas no firmamento descobre que está só. Só mas cercado por suas criações; amparado, portanto, para enfrentar o surpremo sacrifício.
(...) No grande âmago solar do universo, os pássaros dourados se reúnem em consonância. Lá é eternamente aurora, eternamente paz, harmonia e comunhão. O homem não olha em vão para o sol; pede luz e calor não para o cadáver de que um dia se descartará, mas para o seu ser interior.
Henry Miller, A hora dos Assassinos