terça-feira, 26 de julho de 2011


Há muito tempo que eu adoro filmar em interiores. O vídeo permite certas coisas e não outras. É necessário perder tempo, falamos antes das cenas, falamos por dias e mais dias. Em um momento se filma, e isso faz parte da mesma coisa, não há mais choque, o movimento é o mesmo. É muito pensado, é uma maneira de criar uma memória, de fazer com que o texto esteja tão fortemente dentro destes quartos que ele possa ser dito todas as noites, todos os meses, todos os anos, cada dia talvez um pouco melhor. Nós melhoramos as coisas, os atores selecionam, eles eliminam o que é acessório, a cena torna-se mais forte.


Isto vem do filme sobre os Straub? Eu não sei, isto vem de lá, mas também de coisas anteriores. Aqui, eu estava mais entusiasmado plasticamente, eu ousei coisas que eu não podia fazer com "Vanda". Havia um quarto e isto era o suficiente. É inclusive um pouco miraculoso que o filme se segure desta forma. "Vanda" foi feito graças ao desejo de que fosse feito algo assim, de que era necessário filmar aquilo. Um desejo que não era unicamente meu, mas também de Vanda, de sua irmã, e dos outros. Para este filme, houve um outro tipo de fé, se é que se pode falar assim. A crença de que é possível contar ainda uma vez no cinema coisas como se fazia outrora. A idéia de um filme que vem de um certo realismo, mas igualmente da série B, o que é um pouco contraditório: Straub e Tourner, o cinema de horror e a Nouvelle Vague. Os novos apartamentos me parecem muito ligados a "Numéro zéro" de Eustache, por exemplo. "Juventude em Marcha" possui, sem dúvida, muito a ver com o fato de que eu amo este filme e com o que eu retive dos Straub: uma certa maneira, um certo desejo de fazer as coisas.

Pedro Costa, "Cahiers du Cinema" nº 619

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