quinta-feira, 30 de junho de 2011

Quando comprei meu primeiro exemplar da Bíblia, na versão do rei Jaime, senti-me atraído pelo Antigo Testamento, com esse Deus maníaco e punitivo, o qual tratava de Suas punições à humanidade resignada, que me deixara de queixo caído, perplexo diante da profundidade de seu espírito vingativo.

Eu tinha um interesse cada vez maior na literatura violenta, acompanhado de uma noção sem nome da divindade das coisas, e , no início dos meus vinte anos, o Antigo Testamento falava a essa parte de mim que insultava, rosnava e cuspia no mundo. Eu acreditava em Deus, mas também acreditava que Deus era maligno, e, se o Antigo Testamento era Testamento de de alguma coisa, era testamento disso. O mal parecia viver tão próximo da superfície da existência dentro dele que era possível sentir seu hálito exasperado, ver fumaça amarela espiralar de suas inúmeras páginaa, ouvir gemidos de desespero de congelar o sangue. Era um livro maravilhoso, terrível, e era a sagrada escritura.

Mas a gente cresce. Cresce sim. E amadurece. Botões de compaixão irrompem entre as rachaduras de um solo escuro e cáustico. A raiva deixa de precisar de um nome. A gente já não encontra consolo em observar um Deus pugnaz atormentando uma humanidade desgraçada quando aprende a perdoar a gente mesmo e o mundo. Esse Deus dos tempos antigos começa a se transmutar no coração da gente, metais comuns começam a se transformar em ouro e prata, e a gente se compadece do mundo.

Então um dia conheci um vigário anglicano que me sugeriu que eu desse uma pausa no Antigo Testamento e lesse O Evangelho Segundo Marcos. Eu não tinha lido o Novo Testamento naquele período porque o Novo Testamento era sobre Jesus Cristo e o Cristo de que eu me lembrava da época de menino de coro era aquele indicíduo meloso, todo amoroso e debilitado de que a igreja era sectária. Passei anos da pré-adolescencia cantando no coro da Catedral de Wangarafta e me lembro de pensar, mesmo naquela idade, que essa coisa toda era um bocado rala. A Igreja Anglicana: o culto descafeinado e Jesus era o Senhor.

“Por que Marcos?”, perguntei.

“Porque é curto”, respondeu ele.

Bom, naquela época eu estava disposto a experimentar qualquer coisa, por isso segui o conselho do vigário e li O Evangelho Segundo São Marcos, simplesmente me arrebatou.

E isso me faz lembrar daquele retrato de Cristo, pintando por Holman Hunt, onde aparece de manto, vistoso, segurando uma lanterna, batendo a uma porta. A porta que se abre para o nosso coração, provavelmente. A luz é a mortiça e manteigosa nas trevas que envolvem tudo.

Cristo chegou a mim desse jeito, lumen Christi, com uma luz mortiça, uma luz triste, mas luz suficiente. De todos os textos do Novo Testamento – dos quatro Evangelhos, passando pelos Atos dos Apóstolos e a complexa e persuasiva Epístola de Paulo, até o arrepiante e repugnante Apocalipse – , foi O Evangelho Segundo Marcos que realmente me pegou.

Os estudiosos em geral concordam que o de Marcos foi o primeiro dos quatro Evangelhos a ser escritos. Marcos tirou da boca dos professores e profetas a misturada de acontecimentos em que consistia a vida de Cristo e fixou esses acontecimentos numa espécie de forma biográfica. Fez isso com uma insistência tão ávida, com uma intensidade narrativa tão compulsiva, que nos lembramos de uma criança contando uma história extraordinária, acumulando fato sobre fato, como se o mundo inteiro dependesse dela, da qual evidentemente, para Marcos, dependia. “Logo” e “imediatamente” ligam um acontecimento a outro, todo mundo “corre”, “brada”, fica “admirado”, inflamando a missão de Cristo com uma urgência atordoante. O Evangelho de Marcos é um intrépito de ossos, tão cru, nervoso e parco de informações que a narrativa sofre com uma melancolia da ausência. Cenas de profunda tragédia são tratadas com tal trivialidade e economia rudimentar que quase se tornam palpáveis na desolação desamparada. A narrativa de Marcos começa com o batismo e “imediatamente” somos confrontados com a figura solitária de Cristo, que é batizado no rio Jordão e impelido para o deserto. E lá permaneceu “quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Vivia com os animais e os anjos o serviam.”(1:13). Isso é tudo o que Marcos diz acerca da tentação, mas o versículo é tipicamente vigoroso devido à simplicidade e à parcimônia misteriosa.

Os quarenta dias e as quarenta noites de Cristo no deserto também dizem algo sobre Sua solidão, porque, quando Cristo assume Seu ministério nos arredores da Galiléia e em Jerusalém, Ele entra no deserto da alma, onde toda a efusão de Sua imaginação brilhante, como uma pedra preciosa, é alternadamente mal-entendida, rejeitada, ignorada, escarnecida, aviltada, e, por fim, seria a morte para Ele. Até mesmo Seus discípulos, que, é de se esperar, poderiam absorver um pouco do brilhantismo de Cristo, parecem estar imersos num eterno nevoeiro de equívocos, seguindo Cristo de uma cena para outra, com um mínimo de compreensão, ou nenhuma, do que está acontecendo à volta. Muita frustração e ira que parece às vezes quase consumir Cristo é dirigida a Seus discipulos e é um contraste com a persistente ignorância destes que o isolamento de Cristo parece total. É a inspiração divina de Cristo versus o racionalismo obtuso dos que O rodeiam que confere tensão e impulso à narrativa de Marcos. O abismo de desentendimento é tão vasto que os amigos Dele “saíram para agarrá-lo”, pensando: “Ele está Louco” (3:21). Os escribas e os fariseus, com sua monótona insistência na lei, proporcionam o trampolim perfeito para as luminosas palavras de Cristo. Mesmo aqueles que Cristo cura O atraiçoam, ao correrem para as cidades a fim de relatar os feitos do curandeiro milagroso, depois de Cristo insistir que não contassem a ninguém. Cristo renega a própria mãe por não conseguir compreendê-Lo. Ao longo de todo o Evangelho Segundo Marcos, Cristo está num profundo conflito com o mundo que Ele tenta salvar, e o sentimento de solidão que O envolve é às vezes insuportavelmente intenso. O último e longo brado de Cristo na cruz é dirigido a um Deus que Ele acredita tê-Lo abandonado:

Eloí, Eloí, Lamá sabachthani? – Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?

O ritual do Batismo – a morte do eu antigo para renascer – assim como muitos acontecimentos da vida de Cristo, é já temperado metaforicamente pela morte de Cristo e é Sua morte na cruz que consiste em uma força vigorosa e fantasmagórica, principalmente em O Evangelho Segundo Marcos. A preocupação com ela torna-se ainda mais óbvia devido a brevidade com que Marcos trata dos acontecimentos da vida de Cristo. Tem-se a impressão de que praticamente tudo o que Ele faz na narrativa de Marcos é, de algum modo, uma preparação para a Sua morte – a frustração com os discípulos e o medo de que não tenham compreendido o significado pleno de Suas ações, o constante sarcasmo dos oficiais da Igreja, a agitação das multidões, Seus atos miraculosos realizados de tal maneira que as testemunhas irão lembrar-se da extensão de Seu poder divino. Nitidamente, Marcos ocupa-se acima de tudo com a morte de Cristo, de tal modo que Cristo aparece completamente consumido pela morte iminente, inteiramente moldado poSua morte.

O Cristo que emerge de O Evangelho Segundo Marcos, passando pelos eventos casuais de Sua vida, guarda uma intensidade ressonante à qual não pude resistir. Cristo me tocou através de Seu isolamento, através do fardo de Sua morte, através de Sua ira contra o mundano, através de Seu sofrimento. Cristo pareceu-me, foi a vítima da falta de imaginação da humanidade, foi pregado na crus com os pregos da insipidez criativa.

O Evangelho Segundo Marcos continuou a animar minha vida como fonte de minha espiritualidade, minha religiosidade. O Cristo que Igreja nos oferece, o “Salvador” plácido e inanimado – o homem que sorri bondosamente para um grupo de crianças, ou que calma e serenamente pende na cruz -, nega a Cristo Seu sofrimento potente e criativo, ou Sua ira em ebulição que nos confronta energicamente em Marcos. Por conseguinte, a Igreja nega a Cristo Sua humanidade, oferecendo uma figura que talvez possamos “louvar”, mas que não nos diz respeito.

A humanidade essencial do Cristo de Marcos nos proporciona um modelo para nossa própria vida, de modo que temos algo a que aspirar, não reverenciar, que possa nos libertar da mundanidade de nossa existência, não afirmar a noção de que somos inferiores e ignóbeis. O mero louvor a Cristo e Sua Perfeição mantém-nos de joelhos, de cabeça compassivamente baixa.

Sem dúvida não era nisso que Cristo pensava. Cristo veio como libertador. Cristo entendeu que nós, enquanto humanos, estamos para sempre presos ao chão pela atração da gravidade – nossa vulgaridade, nossa mediocridade – e foi por meio de Seu exemplo que Ele deu a nossa imaginação a liberdade de elevar-se e alçar vôo.

Em resumo, ser como Cristo!

Nick Cave

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