O que difere o homem dos outros animais é que ele conceitua suas atividades, racionaliza o que deseja extrair do meio ou da natureza. É um ser histórico. Sua subjetividade – o modo particular de enxergar e vibrar aos apelos dos fatores exteriores – é um processo em construção. O aprendizado é coletivo; aprendemos a falar, criamos uma linguagem, desenvolvemos conceitos a partir da partilha de experiências. Um homem isolado de suas potencialidades de aprendizado, da instrumentalização de sua percepção ou conhecimento, de sua condição social, histórica, tende a engatinhar por sobre veredas naturalistas, dependente de estímulos/respostas primários, reflexos de uma relação pontual de desejo e cumprimento de necessidades apenas. É o homem satisfeito com o seu meio e o que ele tem a oferecer-lhe. Um homem desses não pode produzir arte. Seja o nativo babando sangria de amoras numa selva remota ou qualquer profissional autômato bem-sucedido dos centros urbanos. A arte é a construção do excepcional, da distância possível da cumplicidade que ao cotidiano nos escapa; ao parêntese de negação ou afirmação que toda representação insinua da realidade. A arte é sensibilidade e acuidade às particularidades de cada objeto selecionado ou privilegiado, sua rede de ressonâncias, equilíbrio, força de conjunto e traduções mútuas. Um homem sem curiosidade não produz arte. Peço desculpas a quem pinta dois pontos negros sobre um espaço em branco e nos revela uma charge sobre a intolerância do mundo a partir da primeira lei de Mendel e seu cruzamento de ervilhas; aos que filmam criancinhas oprimidas e citam frases marxistas intercaladas com piadas escatológicas e mulheres nuas; aos que recitam versos para a mamãezinha com as primeiras palavras que lhe chegaram à mente, cuja adesão pede apenas atenção a sua boa vontade; aos que produzem qualquer outra estrela de cinco pontas, mas uma arte sem construção ontológica progressiva do conceito/verdade, não difere das atividades de um macaco vadio agitando arbustos. É apenas ócio.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
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