domingo, 17 de abril de 2011

A última vez em que eu vi aquele homem assustador, ele apareceu na minha casa em Hollywood trazendo de presente para mim um pote de mel. Eu não era especialmente amigo de Rachmaninov naquele tempo; ninguém era, eu acho: relações sociais com um homem do temperamento de Rachmaninov exigem mais perseverança do que sou capaz: ele só estava me trazendo mel.

...Algumas pessoas adquirem um tipo de imortalidade simplesmente graças à completude com que possuem ou deixam de possuir alguma qualidade ou característica. A totalidade imortalizadora de Rachmaninov era seu mau humor. Ele era um mau humor de um metro e noventa de altura.

Suponho que minhas conversas com ele, ou melhor, com a mulher dele, pois ele ficava sempre em silêncio, eram típicas:

Sra. Rachmaninov: Qual é a primeira coisa que o senhor faz quando acorda de manhã? [Isso poderia ter sido indiscreto, mas não se você visse a maneira com que ela perguntava].

Eu: Durante quinze minutos eu faço exercícios que um ginasta húngaro me ensinou, ou melhor, eu fazia até saber que o húngaro morreu muito moço, e muito de repente, e depois eu tomo uma ducha.

Sra. Rachmaninov: Está vendo, Serge, Stravinsky toma ducha. Que extraordinário. Você continua dizendo que tem medo de tomar ducha? E você ouviu ele dizer que faz exercício? O que é que você acha disso? Que vergonha, você nem faz uma caminhada.

Rachmaninov: (Silêncio)



...Quando eu penso nele, acho que o seu silêncio surge como um contraste nobre em comparação com os auto-elogios que são o único assunto dos intérpretes e da maioria dos outros músicos. E ele era o único pianista que eu vi que não fazia caretas. É uma grande coisa.


Stravinsky, “Conversas”, 1959.

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