sábado, 30 de abril de 2011

TRABALHAR CANSA

CESARE PAVESE

Atravessar uma rua fugindo de casa

só um menino o faria, mas este homem que passa

todo o dia nas ruas não é mais menino

e não foge de casa.

Em pleno verão,

até as praças se tornam vazias de tarde, deitadas

sob o sol que começa a cair, e este homem que chega

por um parque de plantas inúteis detém-se.

Vale a pena ser só para estar cada vez mais sozinho?

Simplesmente vagar, pois as praças e ruas

estão ermas. Forçoso é abordar uma mulher

e falar-lhe e fazê-la viver com você.

Do contrário, se fala sozinho. É por isso que às vezes

algum bêbado à noite dispara discursos

e repassa os projetos de toda sua vida.

Certamente não é esperando na praça deserta

que se encontram pessoas, mas quem anda nas ruas

se detém vez ou outra. Estivessem a dois,

mesmo andando na rua, sua casa estaria

onde está a mulher. Valeria a pena.

Mas de noite essa praça retorna ao vazio

e este homem que passa não vê as fachadas

entre luzes inúteis nem ergue seus olhos:

sente só o ladrilho que outros homens fizeram

com mãos secas e duras, assim como as suas.

Não é justo deixar-se na praça deserta.

Com certeza há de andar pela rua a mulher

que, chamada, viria ajudar com a casa.

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