terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Impressões de Matisse sobre o Retrato

« Os verdadeiros retratos, ou seja, aqueles em que os elementos, assim como os sentimentos, parecem sair do modelo, são bastante raros. Na minha juventude, visitei muitas vezes o Museu Lécuyer, em Saint-Quentin. Estava aí reunida uma centena de esboços executados a pastel por Quentin-Latour, antes de fazer os seus grandes retratos sumptuosos. Interessado por esses amáveis rostos, notei em seguida que cada um deles era muito pessoal. Ao sair do Museu, estava surpreendido com a variedade dos sorrisos particulares de cada uma das máscaras, que, embora naturais e encantadoras no conjunto, me impressionavam a ponto de ter eu próprio os músculos do riso cansados. No século XVII, Rembrandt, com o pincel ou com o buril, fez verdadeiros retratos. O meu mestre Gustave Moreau dizia que antes deste mestre só se tinham pintado caretas e o próprio Rembrandt dizia que toda a sua obra era só feita de retratos. Retenho esta frase, parece-me justa e profunda. »

« O rosto humano interessou-me sempre muito. Tenho até uma memória bastante notável para os rostos, mesmo para os que só vi uma vez. Ao olhá-los não faço psicologia nenhuma, mas fico impressionado pela sua expressão muitas vezes particular e profunda. Não sinto necessidade de formular com palavras o interesse que provocamem mim; prendem-me talvez pela sua particularidade expressiva e por um interesse que é inteiramente de ordem plástica. »

« Acabei por descobrir que a semelhança de um retrato resulta da oposição que existe entre o rosto do modelo e os outros rostos, em suma, da sua assimetria particular. Cada rosto tem o seu ritmo próprio e é esse ritmo que cria a semelhança. Para os ocidentais, os retratos mais característicos são alemães: Holbein, Dürer e Lucas Cranach. Jogam com a assimetria, a dissemelhança dos rostos, em oposição aos meridionais, que tendem a maior parte das vezes a reduzir tudo a um tipo regular, a uma construção simétrica. »

« Creio, porém, que a expressão essencial de uma obra depende quase inteiramente da projecção do sentimento do artista; obtido a partir do modelo, e não da exactidão orgânica deste. »

« A transcrição quase inconsciente da significação do modelo é o acto inicial de toda a obra de arte e especialmente de um retrato. Depois disso, a razão está presente para dominar, para aperrear e dar a possibilidade de reconceber, servindo-se do primeiro trabalho como de um trampolim. »

« Conclusão de tudo isto: o retrato é uma das artes mais singulares. Exige ao artista dons especiais e uma possibilidade de identificação quase completa entre o pintor e o modelo. »

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