A crítica, antes de ter seus beneficiários, tem suas vítimas. Espectadores infelizes, rapidamente transformados em especialistas, que folhearam demais e observaram demais, sensíveis apenas à espuma das palavras! Que aprenderam a decompor (o filme em seus elementos) e não sabem mais o que fazer deste último elemento, completamente só, irredutível, isolado e portanto inutilizável, a mise en scène. Que aprenderam a decompor no momento em que - não por acidente - todo o cinema moderno (1963: O Cardeal - Lawrence da Arábia - Deu a Louca no Mundo) tende a se tornar mais sintético, mais unitário, mais completo; a mise en scène a não ser, se é que já foi outra coisa, mais que a síntese de seus elementos ou, para empregar uma palavra mais bonita, sua fusão, ou uma outra ainda mais bonita, sua comunhão (livre, aliás, para daí aceitar aparentes contradições, mas esta é uma outra história). A respeito destas vítimas, de seu embaraço, de sua exasperação também, testemunha esta frase, magnífica, de um distribuidor-crítico comentando com sua clientela a mercadoria da semana: “Bom, agora que nós falamos da mise en scène, passemos ao filme em si”.
Jacques Lourcelles