
Amigos, eu considero um pobre-diabo o brasileiro que não esteve, sábado, no Estádio Mário Filho, vendo e vivendo a festa de Garrincha. Eu ia falar em “noite inesquecível”. Mas, bolas!, há não sei quantas “noites inesquecíveis” que não são inesquecíveis, e repito: — noites que o sujeito esquece meia hora depois.
O belo, o patético, o pungente na “noite de Garrincha” é que ninguém, de fato, a esquecerá. Somos tão cegos que não enxergamos o óbvio ululante, isto é, que ninguém faltaria, ninguém. Eu vi, sábado, no Mário Filho, sujeitos que julgava mortos e enterrados há trinta anos. Até grã-finos que não sabiam se a bola é redonda ou quadrada, até as grãs-finas compareceram.
E foi quase apavorante. No dia do clássico, toda a cidade achou que tinha de estar presente. Foi o maravilhoso encontro, não combinado, com o Mané. Sábado, ninguém era mais importante na cidade. Mas como dizia eu: — somos tão cegos que só parte da massa pôde comprar entrada; era irrisório o número de bilheterias; milhares e milhares de pessoas tiveram que pular o muro ou arrombar portões. E vi uma grã-fina fazer o que não fazia desde a primeira Chupeta: — chorar!
Vejam vocês como são as coisas. Garrincha vivia por aí, mais abandonado, mais desprezado do que um cachorro atropelado. Lembro-me de um sujeito que veio me soprar ao pé da orelha: — “Vai acabar na sarjeta!”. Outro fez o vaticínio não menos feroz, segundo o qual teria o fim do “Ébrio”, de Vicente Celestino. Pode-se dizer que, de uma maneira geral, ninguém jamais admitiu a sua ressurreição.
Cabe então a pergunta: — se todos estavam assim pressagos, por que ninguém ensaiava um gesto de amor? Sim: — por que ninguém lhe estendia a mão, por quê?
Ai de nós, ai de nós. Temos uma piedade frívola e relapsa. Gostamos de esquecer. Eu falei em “piedade” e gostaria de notar: — o brasileiro esquece antes da compaixão. Mas havia, no caso, para todos nós, um problema intolerável de consciência. Mané merecia a nossa alegre e crudelíssima indiferença? Não e nunca. Poucos homens serviram tanto o seu povo.
Em 58 e 62, a nossa felicidade dependeu de suas pernas tortas. Na véspera do jogo com a Rússia, na Suécia, cruzei com um bêbado no meio da rua. Era um crioulão plástico, lustroso, ornamental. Bêbado de morrer, chorava, profético: — “Vamos perder da Rússia! Vamos perder da Rússia!”. Pranteava, na véspera, o desgosto do dia seguinte. E, pouco antes do jogo, estava eu atracado ao rádio, na redação. Virei-me para um companheiro e perguntei-lhe: — “Quem ganha?”. O outro respondeu, com boquinha de nojo: — “Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter”.
Mas foi Mané quem ganhou. Estreava na Copa. Quando recebeu a bola, no primeiro minuto de jogo, driblou um russo, mais outro, outro mais, como no soneto. Driblou as barbas de Rasputin, driblou as cinzas do czar e, em seguida, enfiou uma bomba na trave. O adversário se liquidou, ali, na sua primeira escapada. E, assim, fomos até a final, com Garrincha liquidando o País de Gales, a França, a Suécia.
Em 62, os Andes se prostraram diante do seu gênio. Pelé saiu no segundo jogo e não voltou mais. Garrincha ganhou sozinho o bicampeonato. E, súbito, aquele rapaz da Raiz da Serra compensou-nos de todas as nossas humilhações pessoais e coletivas. Vocês sabem que, do nosso lábio, sempre pendeu a baba elástica e bovina da humildade. Em 58, ou 62, o mais indigente dos brasileiros pôde tecer a sua fantasia de onipotência.
E, por tudo isso, as multidões, sem que ninguém pedisse, e sem que ninguém lembrasse, as massas derrubaram os portões. E ofereceram a Mané Garrincha uma festa de amor, como não houve igual, nunca, assim na terra como no céu.
O belo, o patético, o pungente na “noite de Garrincha” é que ninguém, de fato, a esquecerá. Somos tão cegos que não enxergamos o óbvio ululante, isto é, que ninguém faltaria, ninguém. Eu vi, sábado, no Mário Filho, sujeitos que julgava mortos e enterrados há trinta anos. Até grã-finos que não sabiam se a bola é redonda ou quadrada, até as grãs-finas compareceram.
E foi quase apavorante. No dia do clássico, toda a cidade achou que tinha de estar presente. Foi o maravilhoso encontro, não combinado, com o Mané. Sábado, ninguém era mais importante na cidade. Mas como dizia eu: — somos tão cegos que só parte da massa pôde comprar entrada; era irrisório o número de bilheterias; milhares e milhares de pessoas tiveram que pular o muro ou arrombar portões. E vi uma grã-fina fazer o que não fazia desde a primeira Chupeta: — chorar!
Vejam vocês como são as coisas. Garrincha vivia por aí, mais abandonado, mais desprezado do que um cachorro atropelado. Lembro-me de um sujeito que veio me soprar ao pé da orelha: — “Vai acabar na sarjeta!”. Outro fez o vaticínio não menos feroz, segundo o qual teria o fim do “Ébrio”, de Vicente Celestino. Pode-se dizer que, de uma maneira geral, ninguém jamais admitiu a sua ressurreição.
Cabe então a pergunta: — se todos estavam assim pressagos, por que ninguém ensaiava um gesto de amor? Sim: — por que ninguém lhe estendia a mão, por quê?
Ai de nós, ai de nós. Temos uma piedade frívola e relapsa. Gostamos de esquecer. Eu falei em “piedade” e gostaria de notar: — o brasileiro esquece antes da compaixão. Mas havia, no caso, para todos nós, um problema intolerável de consciência. Mané merecia a nossa alegre e crudelíssima indiferença? Não e nunca. Poucos homens serviram tanto o seu povo.
Em 58 e 62, a nossa felicidade dependeu de suas pernas tortas. Na véspera do jogo com a Rússia, na Suécia, cruzei com um bêbado no meio da rua. Era um crioulão plástico, lustroso, ornamental. Bêbado de morrer, chorava, profético: — “Vamos perder da Rússia! Vamos perder da Rússia!”. Pranteava, na véspera, o desgosto do dia seguinte. E, pouco antes do jogo, estava eu atracado ao rádio, na redação. Virei-me para um companheiro e perguntei-lhe: — “Quem ganha?”. O outro respondeu, com boquinha de nojo: — “Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter”.
Mas foi Mané quem ganhou. Estreava na Copa. Quando recebeu a bola, no primeiro minuto de jogo, driblou um russo, mais outro, outro mais, como no soneto. Driblou as barbas de Rasputin, driblou as cinzas do czar e, em seguida, enfiou uma bomba na trave. O adversário se liquidou, ali, na sua primeira escapada. E, assim, fomos até a final, com Garrincha liquidando o País de Gales, a França, a Suécia.
Em 62, os Andes se prostraram diante do seu gênio. Pelé saiu no segundo jogo e não voltou mais. Garrincha ganhou sozinho o bicampeonato. E, súbito, aquele rapaz da Raiz da Serra compensou-nos de todas as nossas humilhações pessoais e coletivas. Vocês sabem que, do nosso lábio, sempre pendeu a baba elástica e bovina da humildade. Em 58, ou 62, o mais indigente dos brasileiros pôde tecer a sua fantasia de onipotência.
E, por tudo isso, as multidões, sem que ninguém pedisse, e sem que ninguém lembrasse, as massas derrubaram os portões. E ofereceram a Mané Garrincha uma festa de amor, como não houve igual, nunca, assim na terra como no céu.
Nelson Rodrigues, [O Globo, 2/12/1968]