A PAISAGEM
Charles Baudelaire
Se uma composição de árvores, montanhas, cursos d’água e casas, a que chamamos paisagem, é bela, não o é por si mesma, mas por mim, por minha própria graça, pela idéia ou sentimento a que a ela associo, isso quer dizer, penso, que todo paisagista que não sabe traduzir um sentimento mediante uma composição de matéria vegetal ou mineral não é um artista. Bem sei que a imaginação humana, por um esforço extraordinário, pode conceber por um instante a natureza sem o homem, e toda a massa sugestiva se dispersando no espaço, sem um observador que dela extraia a analogia, a metáfora e a alegoria. É indubitável que toda essa ordem e harmonia ainda assim conservam a qualidade inspiradora providencialmente depositada nela; mas, nesse caso, à falta de uma inteligência que possa inspirar, essa qualidade seria como inexistente. Os artistas que querem exprimir a natureza, mas não os sentimentos que ela inspira, submete-se a uma estranha operação que consiste em matar dentro deles o homem pensante e sensível, e, infelizmente, acredite que, para muitos, essa operação nada tem de estranho nem de doloroso. Essa foi a escola que prevaleceu, hoje e no passado. Admitirei, seguindo a opinião geral, que a escola moderna dos paisagistas é singularmente forte e hábil; mas no triunfo e na predominância de um gênero inferior, no culto todo da natureza, não purificada nem interpretada pela imaginação, vejo um sinal evidente de uma degradação geral. Detectaremos, sem dúvida, algumas diferenças de habilidade prática entre os vários paisagistas, mas essas diferenças são ínfimas. Alunos de mestres diversos, todos pintam excelentemente, e quase todos se esquecem de que uma paisagem não tem outro valor senão o sentimento atual que o artista nela incute. A maioria cai no erro que eu apontava no começo desse estudo: tomam o dicionário da arte pela própria arte; copiam uma palavra do dicionário, acreditando transcrever um poema. Ora, um poema jamais pode ser copiado; ele deve ser composto. Assim, abrem a janela, e todo o espaço compreendido no vão da janela — árvores, céu e casa — adquire para eles o valor de um poema composto. Alguns vão mais longe ainda. A seus olhos, um estudo já é um quadro. [...]
Sim, a imaginação faz a paisagem. Compreendo que um espírito aplicado em tomar notas não possa abandonar-se às prodigiosas fantasias impregnadas nos espetáculos da natureza que tem sob os olhos; mas por que a imaginação foge do ateliê do paisagista? Talvez os artistas que cultivam esse gênero desconfiem excessivamente da própria memória e adotem um método de cópia imediata, que se adapta perfeitamente à preguiça de seu espírito. [...]
Não são apenas as pinturas de marinha que estão ausentes, um gênero tão poético (não considero como marinhas certos dramas militares que ocorrem sobre a água), mas também um gênero que chamaria de bom grado de paisagem das grandes cidades, quer dizer, a coleção das grandezas e das belezas que resultam de uma poderosa aglomeração de homens e monumentos, o fascínio profundo e complexo de uma capital antiga e envelhecida nas glórias e atribulações da vida. [...]
Tenho saudade ainda, talvez pelo fato de obedecer inconscientemente aos hábitos de minha juventude, da paisagem romântica e inclusive da paisagem romanesca que existiu no século XVIII. Nossos paisagistas são animais excessivamente herbívoros. Não se aprazem em nutrir-se de ruínas e, salvo homens como Fromentin, o céu e o deserto os aterrorizam. Tenho saudade dos grandes lagos que representam a imobilidade no desespero, das imensas montanhas, escadarias do planeta em direção ao céu, de onde tudo o que antes parecia grande se torna pequeno, das cidadelas (sim, meu cinismo chega a esse ponto), das abadias rendilhadas de ameias que se miram nos lúgubres lagos, das pontes gigantescas, das construções ninivitas1, habitadas pela vertigem, enfim, de tudo o que seria necessário inventar se já não existisse. [...]
O senhor vê, caro amigo, que jamais posso considerar a escolha do assunto como indiferente, e que, apesar do amor necessário que deve fecundar o mais humilde fragmento, creio que o tema constitui para o artista parte do gênio e, para mim, um bárbaro apesar de tudo, parte do prazer. Em suma, encontrei entre os paisagistas apenas talentos comportados ou medíocres, com enorme preguiça de imaginação. Em nenhum deles, pelo menos, vi o encanto natural, que tão simplesmente se exprime, das savanas e dos prados de Catlin (aposto que não sabem nem mesmo o que é Catlin), nem a beleza sobrenatural das paisagens de Delacroix, nem a magnífica imaginação que se derrama nos desenhos de Victor Hugo, como o mistério no céu. Falo dos desenhos a tinta nanquim, pois é bem evidente que em poesia nosso poeta é o rei dos paisagistas. Gostaria de ser levado de novo para os dioramas cuja magia brutal e imensa sabe me impor uma útil ilusão. Prefiro contemplar alguns cenários teatrais onde encontro, expressos com a arte e concentrados de forma trágica, meus sonhos mais caros. Essas coisas, porque falsas, estão infinitamente mais próximas da verdade, enquanto a maioria de nossos paisagistas são mentirosos, justamente porque negligenciaram mentir.
A Pintura (textos essenciais) Vol.10 Os gêneros pictóricos. São Paulo, Ed.34, 2006. pag.124 a 127
1 Baudelaire refere-se aos esplendores arquitetônicos (palácios, muralhas, ruas e canais) dos tempos de Senaquerib (705-681 a.C). (N.da T.)