Massacrado pela criticalha, ignorado até pelos cinéfilos inveterados, o último filme de José Mojica Marins ficou uma semana no cine Marabá e só foi visto por uma parte do povão e uma minoria de entendidos. Eu não sei mais entre quais estou: a verdade é que Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro mexeu com meus instintos bárbaros. E não tenho vergonha de dizer que passei uma hora e meia de extrema satisfação.
Mojica é um sádico? Um hedonista? Um doido? Um primitivo? Um comunista? Um intuitivo? Um bárbaro? Um masoquista? Um desrecalcado? Ou será um lunático disfarçado em terráqueo? Vá ter talento em outra parte, seo Zé. Você tem demais o que os outros tem de menos, quando tem... Daí que realmente é o cineasta dos excessos, da riqueza cafajeste, da riqueza selvagem. O filme se ambienta na selva (e quem é que diz que isso foi filmado nos estúdios do Brás?), é um bando de párias da sociedade na trilha de um tesouro. Sierra Madre está longe: aqui estamos diante de um filme novo, novíssimo, pois é um filme extremamente brasileiro. Nada mais linear, mas nada mais quente, nada mais provocante: as peças vão se comendo entre si, misturando ambição pelo ouro e desejos carnais, é a antropofagia num nível de escrotidão jamais visto na tela. Tá na cara que Mojica é o diretor mais corajoso do cinema brasileiro: é a coragem de se olhar no espelho e reconhecer um grandíssimo (&&&)...
O público vibra com certas cenas. Os que não vibram contem seus recalques, autoreprimem-se pois não há nada mais chocante do que ir ao cinema ver um filme de aventura e encontrar uma bolachada na cara. Isso para os moralistas, pois Mojica jamais caiu numa de moralista e, mesmo com vinte (20, sim) cortes da censura, Sexo e Sangue ainda mantêm sua força. É o salve-se-quem-puder e não há tesouro nenhum: se há, é um baú cheio de pedras preciosas que valem menos do que a dona gostosona que fica com Mojica no fim do filme.