quarta-feira, 30 de junho de 2010

Poder-se-á dizer que Journal é um filme mudo com legendas faladas? (...) A palavra nunca se insere na imagem como uma componente realista: mesmo quando é pronunciada pelos personagens (ou seja, quando não é off) tem sempre o tom de um recitativo de ópera. À primeira vista, o filme é constituído, por um lado, pelo texto (encurtado) do livro e, por outro, por imagens que nunca pretendem substituí-lo. Nem tudo o que é dito é mostrado, mas nada do que é mostrado dispensa ser dito (...) Bresson acaba definitivamente com um lugar comum da crítica que nos repetia que imagem e som se deviam completar. Os momentos mais comoventes deste filme são exactamente aqueles em que o texto diz a mesma coisa que a imagem, porque, dizendo-o, o diz de outra maneira. Nunca o som completa o acontecimento visto: reforça-o e multiplica-o como a caixa de ressonância do violino reforça e multiplica as vibrações das cordas. Metáfora que não traduz, em toda a sua riqueza, a dialéctica que se processa, pois não é tanto de ressonância que se trata, mas de décalage: como a duma cor não sobreposta ao desenho. É na margem entre o visto e o ouvido que o acontecimento liberta o seu significado. (...) A imagem acumula uma energia estática, semelhante às das lâminas paralelas num condensador. A partir da imagem, e articulando-se com a banda sonora, organizam-se diferenças de potencial estético cuja tensão se torna insuportável. Assim, a relação de imagem e do texto progride, para o fim, em benefício deste último e é muito naturalmente e sob a exigência duma lógica imparável que, nos últimos segundos, a imagem desaparece do écran (...). O espectador foi progressivamente levado para essa noite dos sentidos, cuja única expressão possível é a luz sobre o écran branco.

André Bazin (excerto) em "Le Journal d'un Curé de Campagne et la stylistique de Robert Bresson". Tradução de João Bénard da Costa.

Arquivo do blog

Seguidores