sexta-feira, 28 de maio de 2010

Primeira qualidade do cinema de Eric Rohmer: a paciência. Não somente a de um homem bastante seguro de si mesmo para se impor – no momento, com uma longa-metragem e alguns filmes pedagógicos – como um dos “grandes” do jovem cinema francês. Ainda uma obra onde tudo nos leva a essa virtude primordial: saber esperar, aprender a ver, o que é graças ao cinema uma coisa só. Como se o mundo fosse um imenso repertório de lições das coisas a que não costumamos nos deter.

O primeiro olhar não ensina nada. Mas por trás da neutralidade das aparências – com Rohmer, nada jamais é sublinhado, ainda menos privilegiado – se encontra uma lição essencial, uma ordem a descobrir, uma verdade a ser posta em evidência. Essa lenta maturação será o próprio tempo do filme, que longe de excluir os tempos mortos e os detalhes, se fundará através deles.

O princípio também é simples: catapultar as idéias contra as experiências, observar escrupulosamente e ver o resultado. A experiência é para Rohmer um pouco o que era para Hawks: uma única realidade, que indica onde está o possível e onde está o impossível, rejeitando este, tratando de extrair aquele. O mesmo para as personagens: para os que consistem em ver alguma coisa, é necessário um périplo, uma incitação, uma prova ao final da qual terão merecido o que já detinham, mas que enxergavam sem uma certa profundidade. Em Le Signe du Lion é preciso manter a riqueza por uma prova de pobreza que obriga a redescobrir tudo, a ver melhor. A mesma situação para um registro menos grave em La Boulangère de Monceau.

A experiência exige a maior honestidade, muitos escrúpulos, minúcias. Rohmer é esse cineasta encantado pela geografia, as cidades, os mapas, as pedras, tudo o que pode oferecer essa resistência impessoal que se volve às aventuras humanas mais exemplares. Contudo, a ficção é sempre uma armadilha: é preciso dissimular, moderar seus efeitos. É tudo ao contrário em relação aos filmes pedagógicos onde Rohmer encontra a paixão e a precisão, o ódio do impreciso e da entropia, a beleza de um raciocínio e o lado inelutável de toda experiência.

Em Les Cabinets de physique au XVIII siècle, que talvez seja a sua obra-prima, basta-lhe filmar uma experiência de física, passo a passo, para que nasça a emoção mais simples. E também a mais estranha seguramente, já que nasce unicamente da exatidão.

Serge Daney, Dictionnaire du cinéma. Éditions Universitaires, 1966. Tradução: Felipe Medeiros.

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