
'Minha doçura,
Quatro horas da manhã que não chega. Agora a noite é um crânio, que entre as mãos pesa a sua história mortal. Yorick, meu velho bobo branquíssimo: fizemos grandes caminhadas pelo silêncio, devastámos as suas margens imprecisas e, atrás de cada silêncio, havia um silêncio novo - indecifrável memória da nossa própria história.
Quatro horas da manhã que não chega. Agora a noite é um crânio, que entre as mãos pesa a sua história mortal. Yorick, meu velho bobo branquíssimo: fizemos grandes caminhadas pelo silêncio, devastámos as suas margens imprecisas e, atrás de cada silêncio, havia um silêncio novo - indecifrável memória da nossa própria história.
Uma febre toma a minha pobre, assustada cabeça. Conheço as grandes bebedeiras do amor, digo eu que estou face a si como furor de poema e poema de fervor. Conheço o fundo doloroso das coisas: não conheço mais nada. Neste momento, o meu espírito passeia loucamente pelas quatro paredes que me rodeiam. Estou num quarto e não estou nada bem. Lembro-me de primeira frase de um conto de Borges "La candente mañana de Febrero en que Beatriz Viterbo murió..." Entretanto, como uma banana e tenho vontade de rir (o que é bom sinal) porque sei, através do Musil, que é preciso viver em humor e desespero.
Queria era adormecer e não chatear mais ninguém com a minha incómoda pessoa (...)''.
João César Monteiro, Novembro 1970