Para muitos, este homem é uma maldição impronunciável, uma defesa ilícita. Dele convém o silêncio, é perigoso citar seu nome. Deste modo, evita-se que discutam seus pontos de vista, certamente discutíveis e bastante minoritários, porém dignos de debate.
Para arquivá-lo – e isso facilita o pouco que se prodiga desta assinatura, ainda que me pareça difícil prevenir ou ignorar sua monumental e singular obra individual Dictionnaire du Cinéma – Les Films (collection Bouquins, Éditions Robbert Laffont, 1992, París) -, quando algo rompe a conspiração de silêncio que rodeia Lourcelles, será colocada a desculpa que cai manifestadamente em dois dos vícios mais clássicos e o maior mal desta crítica:
Em primeiro lugar, a acusação de ignorar reacionariamente a evolução do cinema, para o qual nada é de valor seguro, nem mesmo muito sóbrio, em todo o cinema posterior aos anos 60. Isto é de uma total cegueira, pois há elogios para um certo cinema dos anos 70 ou 80 - coisas que realmente valem a pena corrermos atrás, porque como pouquíssimos filmes realizados, são bastante interessantes. Para complicar de vez, Lourcelles deu rédeas soltas em sua juventude ao gosto pela provocação, e ainda que com o tempo tenha se moderado, não renunciou de todo a esse atrevimento, o que me parece saudável e bem-vindo a esse sectarismo “maria vai com as outras” e oportunista da maioria dos críticos, que, seguindo as modas e os ventos ideológicos dominantes, tendem a ser incrivelmente acomodados. Talvez a causa mais provável pela qual Lourcelles ainda hoje é o proscrito que muitos de seus colegas durante os anos 60 e 70 o converteram, seja simplesmente por ter sido um dos primeiros e mais representativos nomes da Présense du Cinéma, associada por conveniência à extrema direita, às posturas colonialistas, ao racismo, etc, presumivelmente sem razões de peso discutível – salvo excepcionalmente – na própria revista, mas baseadas em outras tomadas de posição extremas e extra-cinematográficas de alguns de seus redatores e colaboradores ocasionais, atribuíveis com maior motivo a outros que ali escreviam. No mais, parece que Lourcelles é culpado por ser de uma família abastada e poder se permitir ao luxo de não trabalhar ou realizar o que o apatece com uma liberdade certamente admirável e que não deixa de causar inveja.
Assim é esquecido de forma escandalosa um dos críticos (contadíssimos) que ousaram propor novos - e em geral menosprezados ou ignorados, mas quase todos efetivamente importantes – mestres, na oposição a figuras reconhecidas ou polêmicas mas unanimente respeitadas. Assim é esquecido um daqueles de melhor escrita, um dos contadíssimos seres que sabem contar algo de um filme (que o digam suas admiráveis sinopses do Dictionnaire), e também um dos que, com maior perspicácia e profundidade, são capazes de analisá-lo com econômica concisão. Eu devo confessar que poucas vezes estou de acordo, ao menos plenamente, com os críticos que mais admiro e respeito, mesmo quando não coincidimos em nada nossas idéias – até quando gostamos ou desgostamos profundamente do mesmo filme, pode ser por razões que nada tem a ver -; e por infelicidade, posso admirar ou detestar os mesmos diretores que aqueles críticos que não me interessam em nada, desde seus pontos de vista como a própria falta de merecimento do título. Com Lourcelles não posso estar em maior desacordo acerca de, por exemplo, Godard, nem mais de acordo quando fala de Mizoguchi, Fritz Lang, Raoul Walsh, Otto Preminger, Sacha Guitry, Raffaele Matarazzo, Joseph L. Makiewski e uma multitude de outros cinestas “menores” ou desatendidos que também considero muito interessantes ou enormes, desde Henry King a Allan Dwan, de Jacques Tourneur a Blake Edwards, de Robert Wise a Edward Ludwig, de David Lean a Richard Fleischer.
Além de que já em tempos de Présence du Cinéma – entre 1960 e 1966, aproximadamente – escrevera algumas críticas verdadeiramente memoráveis, dessas que nos revelam ou fazem reconsiderar um cineasta ou um determinado filme, ou nos fazem querer ver o que não conhecemos por resultar tão interessante pela maneira de como foi escrito, ainda alguns estudos demasiado breves e incompletos sempre sobre alguns de seus cineastas favoritos (Otto Preminger em Seghers, Leo McCarey nos fascículos de L’Anthologie du Cinéma), seu grande ponto de chegada – não conheço os roteiros que escreveu para Pascal Thomas – é o mencionado dicionário, tão pessoal como vasto e cheio de achados e descobrimentos, patente demonstração de um conhecimento objetivo e profundo, apesar do vasto território abacarcado.
Para arquivá-lo – e isso facilita o pouco que se prodiga desta assinatura, ainda que me pareça difícil prevenir ou ignorar sua monumental e singular obra individual Dictionnaire du Cinéma – Les Films (collection Bouquins, Éditions Robbert Laffont, 1992, París) -, quando algo rompe a conspiração de silêncio que rodeia Lourcelles, será colocada a desculpa que cai manifestadamente em dois dos vícios mais clássicos e o maior mal desta crítica:
Em primeiro lugar, a acusação de ignorar reacionariamente a evolução do cinema, para o qual nada é de valor seguro, nem mesmo muito sóbrio, em todo o cinema posterior aos anos 60. Isto é de uma total cegueira, pois há elogios para um certo cinema dos anos 70 ou 80 - coisas que realmente valem a pena corrermos atrás, porque como pouquíssimos filmes realizados, são bastante interessantes. Para complicar de vez, Lourcelles deu rédeas soltas em sua juventude ao gosto pela provocação, e ainda que com o tempo tenha se moderado, não renunciou de todo a esse atrevimento, o que me parece saudável e bem-vindo a esse sectarismo “maria vai com as outras” e oportunista da maioria dos críticos, que, seguindo as modas e os ventos ideológicos dominantes, tendem a ser incrivelmente acomodados. Talvez a causa mais provável pela qual Lourcelles ainda hoje é o proscrito que muitos de seus colegas durante os anos 60 e 70 o converteram, seja simplesmente por ter sido um dos primeiros e mais representativos nomes da Présense du Cinéma, associada por conveniência à extrema direita, às posturas colonialistas, ao racismo, etc, presumivelmente sem razões de peso discutível – salvo excepcionalmente – na própria revista, mas baseadas em outras tomadas de posição extremas e extra-cinematográficas de alguns de seus redatores e colaboradores ocasionais, atribuíveis com maior motivo a outros que ali escreviam. No mais, parece que Lourcelles é culpado por ser de uma família abastada e poder se permitir ao luxo de não trabalhar ou realizar o que o apatece com uma liberdade certamente admirável e que não deixa de causar inveja.
Assim é esquecido de forma escandalosa um dos críticos (contadíssimos) que ousaram propor novos - e em geral menosprezados ou ignorados, mas quase todos efetivamente importantes – mestres, na oposição a figuras reconhecidas ou polêmicas mas unanimente respeitadas. Assim é esquecido um daqueles de melhor escrita, um dos contadíssimos seres que sabem contar algo de um filme (que o digam suas admiráveis sinopses do Dictionnaire), e também um dos que, com maior perspicácia e profundidade, são capazes de analisá-lo com econômica concisão. Eu devo confessar que poucas vezes estou de acordo, ao menos plenamente, com os críticos que mais admiro e respeito, mesmo quando não coincidimos em nada nossas idéias – até quando gostamos ou desgostamos profundamente do mesmo filme, pode ser por razões que nada tem a ver -; e por infelicidade, posso admirar ou detestar os mesmos diretores que aqueles críticos que não me interessam em nada, desde seus pontos de vista como a própria falta de merecimento do título. Com Lourcelles não posso estar em maior desacordo acerca de, por exemplo, Godard, nem mais de acordo quando fala de Mizoguchi, Fritz Lang, Raoul Walsh, Otto Preminger, Sacha Guitry, Raffaele Matarazzo, Joseph L. Makiewski e uma multitude de outros cinestas “menores” ou desatendidos que também considero muito interessantes ou enormes, desde Henry King a Allan Dwan, de Jacques Tourneur a Blake Edwards, de Robert Wise a Edward Ludwig, de David Lean a Richard Fleischer.
Além de que já em tempos de Présence du Cinéma – entre 1960 e 1966, aproximadamente – escrevera algumas críticas verdadeiramente memoráveis, dessas que nos revelam ou fazem reconsiderar um cineasta ou um determinado filme, ou nos fazem querer ver o que não conhecemos por resultar tão interessante pela maneira de como foi escrito, ainda alguns estudos demasiado breves e incompletos sempre sobre alguns de seus cineastas favoritos (Otto Preminger em Seghers, Leo McCarey nos fascículos de L’Anthologie du Cinéma), seu grande ponto de chegada – não conheço os roteiros que escreveu para Pascal Thomas – é o mencionado dicionário, tão pessoal como vasto e cheio de achados e descobrimentos, patente demonstração de um conhecimento objetivo e profundo, apesar do vasto território abacarcado.
Miguel Marías, tradução de Felipe Medeiros.