domingo, 23 de maio de 2010

Beijos Imaculados

Amigos, falemos ainda e sempre do bi. Normalmente, cada um de nós é um solitário e um incomunicável. O sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura. E, súbito, o escrete vem e arremessa o brasileiro do seu silêncio e de sua misantropia. Este povo taciturno, caladão, tornou-se um extrovertido ululante. Nas esquinas, nas casas, nos botecos, erguíamos o nosso grito como uma lança agudíssima.

E descobrimos o “próximo”. Aí é que está: — na vida comum, o chamado “próximo” é o ser mais distante e mais inescrutável. Essa incomunicabilidade faz um mal danado. Pois bem: — o bi lançou-nos nos braços do próximo. As ruas se encheram de desconhecidos íntimos. Todo mundo beijava todo mundo. O Brasil foi, por um momento, a terra da ternura humana. Os bêbados caíam abraçados à sarjeta e querendo beijar o meio-fio.

E se houve aqui essa orgia de ternura, imaginem vocês lá no Chile, lá em Santiago, no próprio local, e repito: — no próprio local. Os brasileiros que assistiram ao jogo estavam cara a cara com o fato, viviam o acontecimento na carne e na alma, tinham uma relação física com a vitória. Pode-se imaginar o delírio feroz, nunca visto em terra nenhuma, em época nenhuma.

Ontem eu falei dos espíqueres de rádio, autores do nosso massacre emocional. Ainda agora a nação está com os nervos em pandarecos, graças aos bárbaros do microfone. Mas eu lhes digo: — bendita a angústia que os locutores atearam no Brasil! Continuemos, amigos, continuemos. O que eu queria dizer é que, em Santiago, e sob o deslumbrante choque do bi, o brasileiro foi o mais doce ser da Terra.

O brasileiro! Nós sabemos que, normalmente, o brasileiro é um fauno de tapete. Usamos sapatos para disfarçar os pés de cabra. Em Santiago, porém, na noite do triunfo, os nossos patrícios foram sufocados por uma golfada de bondade total. Amigos, costumo dizer que qualquer um tem o seu momento de são Francisco de Assis, e insisto: — o vigarista, o batedor de carteiras, o ladrão de galinhas ou o Drácula podem, sob um estímulo qualquer, virar um santo feérico.

Ainda está para se escrever um capítulo sobre os beijos do bi, na capital chilena. Ao soar o apito final, cada brasileiro presente sentiu-se fisicamente implicado no triunfo. Aliás, o bi foi um êxito pessoal de 75 milhões de sujeitos. Todos nós “ganhamos”, todos nós “chutamos”. E, depois do match, cada um de nós tinha as canelas materialmente esfoladas.

E aí começavam os beijos. O sujeito identificava uma patrícia desconhecida e se lançava nos seus braços. Às vezes não era patrícia, era chilena ou mesmo tcheca. Mas valia assim mesmo. Aí é que entrava a pureza da vitória. Naquele momento, o brasileiro beijaria a própria Ava Gardner com uma dessas inocências desesperadoras. Ninguém era desconhecido de ninguém.

Tudo isso debaixo de lágrimas. Graças a Deus, somos o povo mais chorão do mundo. O próprio O Globo estampou uma fotografia que é um documento do caráter nacional: — Zagalo chorando. Tal flagrante devia constar de Os sertões, de Euclides da Cunha, na parte referente ao homem. E lamento que não tenha sido gravado o soluço de Zagalo, para ser retransmitido numa cadeia de emissoras. Assim é o brasileiro. Chora em tudo e por tudo, em batizado, em enterro, aniversário.

Mas disse eu que o brasileiro é o fauno de tapete. Não no Chile, após a vitória. Os nossos patrícios beijavam qualquer uma, e com que inefável naturalidade. Na euforia do triunfo, o “amor ao próximo” passou a funcionar em todo o seu esplendor. Ninguém era pobre, rico, bonito, feio, Cleópatra, Lollobrigida ou Paulina Bonaparte, se por lá aparecesse — seria apenas o “ser humano”. O brasileiro descobria o “ser humano”. No sortilégio do bi, até um esquimó seria nosso “próximo” — fisicamente próximo.

Mas eu dizia que os cavalheiros beijavam as damas, e já acrescento: — também os cavalheiros se beijavam. Vocês se lembram do caso dos generais franceses. Na hora da condecoração, eles se beijam uns aos outros. O brasileiro não entendia essa ternura oficial entre homens. Mas aí está a lição de vida do bicampeonato. Na tarde de 17 de junho cada um de nós deixou de ser o fauno de flautinha, ou de gaita, sei lá. A distribuir beijos imaculados, o brasileiro foi, por um momento, um são francisco, um mané, um garrincha, cheio de graça.

Nelson Rodrigues em [O Globo, 23/6/1962].

Arquivo do blog

Seguidores