quarta-feira, 19 de maio de 2010

Arte ou Indústria?

Jean Renoir

Os filmes são uma arte ou uma indústria? Essa pergunta me é feita freqüentemente. Ela ultrapassa o quadro da arte – ou da indústria – do filme. Permito-me responder com uma pequena história verídica – só estou mudando os nomes e os lugares – e que no caso pode fazer papel de parábola.

Às vésperas da Primeira Grande Guerra, eu era suboficial num regimento de dragões. Meus companheiros e eu freqüentávamos assiduamente a casa de mulheres da cidadezinha. Atraía-nos a ela uma moradora com o nome de Marie-Louise.

Eu mal estava saindo do colégio e ainda acreditava nas classificações. Com isso quero dizer que dividia o mundo e a vida que o anima em rodelinhas e quadradinhos dentro dos quais arrumava os seres e as coisas, os sentimentos e as percepções. Os bons eram perfeitamente bons, bem em seu lugar em sua moldurinha. Os maus ficavam agrupados em outra moldura. O branco era branco e o preto era preto. Um comerciante era um comerciante e um artista era um artista.

Não me vinha à idéia que o sapateiro pudesse ter o gênio da música e que o poeta pudesse ser um magnífico perito em investir seu dinheiro na Bolsa. Eu ainda não havia digerido aquela lição dada gratuitamente a todo cavaleiro, a saber, que não existem cavalos perfeitamente brancos e que também não há cavalos idealmente negros. Os da infantaria diziam: “Está aí um cavalo branco, ou está aí um cavalo negro.” Mas nós outros, os dragões, dizíamos: “Este cavalo é cinza-claro e este outro é baio-escuro.” A pelagem do primeiro comportava certamente alguns pêlos escuros, e passando a mão no sentido contrário aos pêlos no segundo tinha-se certeza de descobrir pêlos brancos.

Na natureza, o absoluto não existe. Só nos melodramas é que as pessoas são completamente boas ou completamente más, completamente realistas ou completamente sonhadoras, gulosas ou ascetas, fiéis ou traidoras, belas ou feias. A natureza é mais sutil que o melhor dos melodramas.

Por isso é que a maior parte dos grandes autores se inspirou nela e desconfiou de sua própria imaginação. Mas, aos vinte anos, somos insensíveis à esplêndida variedade da criação. Só com os primeiros reumatismos é que nos damos conta de que o único autor cuja imaginação é infinita é Deus.

Voltemos a Marie-Louise. Descrevê-la não é tão simples quanto se poderia pensar. E, no entanto, sabe o diabo como é fácil classificar as mulheres dessa profissão dentro de uma moldurinha. Os motivos que orientam a vida delas em geral são infantis: a preguiça, a isca de um gancho fácil e às vezes o desejo ingênuo de luz e de ruído. Elas gostam de jóias vistosas, maquiagens exageradas, roupas escandalosas. Marie-Louise não era preguiçosa. Não parava de tricotar, remendar, costurar vestidos para as amigas. Não gostava de barulho. Quando um cliente achava a pianola barulhenta demais, ela suspirava de alívio e corria para desligar aquele instrumento “que rebenta os ouvidos da gente”.

Dentro do estabelecimento, ela se apresentava ao cliente vestida com o roupão transparente que constituía o uniforme sumário das sacerdotisas daquele templo consagrado ao culto de Vênus. Em compensação, quando estava de folga, seu vestidinho escuro, de gosto perfeito, fazia pensar que fosse filha de comerciantes abastados da cidade. No exercício de suas funções, se um cliente manifestasse desejo de se divertir, ela se soltava. Nessas ocasiões tornava-se uma verdadeira bacante. Não ouso evocar suas invenções ao mesmo tempo lúbricas, engraçadas, em que qualquer caso inesperadas e acentuadas por um vocabulário que fazia até o dono do estabelecimento corar.

Na cidade, sua linguagem era a de uma boa aluna de um bom convento para moças de sociedade. O contraste entre a hetaira complacente, e a modesta jovem que aos domingos saía da missa de olhos baixos, só os levantando para dar o tradicional tostão ao pobre, era inimaginável.

A guarnição inteira conhecia Marie-Louise. Simples cavaleiros, suboficiais, talvez mesmo alguns daqueles senhores oficiais, haviam podido apreciar a excelência de seus serviços. Dela, todo mundo dizia, com uma nuance de admiração na voz: “Marie-Louise é uma puta e tanto!” E sempre havia alguém para corrigir: “Desculpe! Marie-Louise é uma artista!” E cada um de nós aprovava.

O freqüentador mais assíduo de Marie-Louise era um de meus colegas; Menard era filho do dono de uma loja de ferragens da cidade. Havia-se engajado no regimento local para não ficar longe da família durante o serviço militar. Dividia as noites entre os pais, com quem jantava várias vezes por semana, e Marie-Louise, que visitava nos outros dias. Nós éramos suboficiais no mesmo esquadrão e tínhamos freqüentemente oportunidade de estarmos juntos, principalmente no cassino de oficiais, onde não deixávamos de fazer um sacrifício ao rito sagrado do aperitivo.

Um dia, não pude esconder dele minha desaprovação pela maneira como ele havia tratado Marie-Louise na noite da véspera, exigindo de parte dela as complacências mais ignóbeis, e isso na frente de vários suboficiais, entre os quais seu servidor. Menard ficou estupefato com minha observação: “Ela é puta, respondeu-me, está fazendo o seu trabalho.”

Insistiu no fato de que ela fazia aquilo sem idéia preconcebida e que seria a primeira a se espantar com minha atitude incompreensível. “A gente pode satisfazer certas necessidades com uma mulher da vida, observei, mas sem humilhá-la.” – “Ela não se sente humilhada, retorquiu Menard, pela simples razão de que ser humilhada faz parte dos deveres da profissão dela”.

Lançou-se numa grande explicação, comparando as casas de prostituição àquelas barracas de parque de diversões, onde se pode quebrar toda a louça que se quiser pelo preço de um bilhete. “O homem direito, que durante a vida inteira tem que prestar atenção para não lascar os pratos de medo de uma cena com a senhora sua esposa, encontra nesse massacre a revanche de seus receios acumulados. É a válvula de segurança. Sem ela, ele ficaria louco, ou mataria a mulher.

Para nós, é a mesma coisa. O ajudante nos trata igual a lama e trememos com o mínimo franzir de sobrolhos do chefe do esquadrão. É humilhante passar o tempo todo de olho na aprovação de um cavalheiro que tem o direito de arruinar nossa vida porque tem uns galões a mais que nós.

No bordel, encontramos nossa revanche. Humilhamos por nossa vez. Novamente, a válvula de segurança!” Esse raciocínio não deixava de ter valor. A continuação já era mais sujeita a caução. “Você entende, continuava Menard, há duas espécies de mulheres, as moças honestas e as putas.

As primeiras, você casa com elas, elas te dão filhos, tomam conta da casa. São mais que nossas companheiras. São nossas sócias. O campo delas é a família. As alegrias da carne são o campo das especialistas em galanteria. Só estas conhecem realmente a questão porque passam a vida a estudá-la. Em nossa época, somos especialistas e, numa sociedade bem organizada, não se deve misturar alhos com bugalhos.”

Isso acontecia algumas semanas antes da Primeira Guerra Mundial. A vida nas trincheiras viria a reforçar minhas dúvidas sobre a excelência das teorias de Menard. Durante os longos períodos que passávamos nos abrigos, eu ia descobrindo que os camponeses mais grosseiros eram cheios de finura, que os alemães nem sempre eram inimigos e que alguns companheiros do mesmo mundo que eu, que exibiam os mesmos diplomas, freqüentavam em Paris os mesmos bares, usavam a mesma linguagem, eram para mim totalmente estranhos.

Quando acabou a guerra, senti vontade de rever minha cidadezinha de guarnição. Era um domingo. Cheguei bem a tempo para a missa. À minha frente, a algumas fileiras de bancos, pareceu-me reconhecer uma silhueta familiar. Tratei de pôr um nome naquela mulher bonita, bem roliça, bem vestida, bem enchapelada, apresentando todas as aparências de uma burguesa importante. De repente, reconheci seu vizinho, um cavalheiro de correção severa em seu terno de flanela escura: uma leve calvície aumentava sua dignidade. Estava segurando o chapéu-coco embaixo do braço da maneira como nós, dragões, segurávamos nossos capacetes de crina.

Foi isso o que me deu a pista. Não havia dúvidas, era Menard. Na hora da coleta, sua companheira passou-lhe discretamente uma moeda de vinte e cinco centavos. Ambos, com o mesmo gesto, lançaram seus óbolos na cesta que uma jovem Filha de Maria estendia para eles.

Um sincronismo desses só existe entre esposos. Quem é que aquela mulher haveria de ser? Vocês conhecem o efeito de um olhar insistente pousado em cima. A sensação de que eu a estava olhando fez com que ela se voltasse. Era Marie-Louise, um pouco mais gorda mas mais linda do que nunca.

O almoço foi ótimo. “Dê uma provada nesse patê, dizia Menard, foi minha mulher que fez... Dê uma bicada nesse Pithiviers, uma especialidade de minha mulher.” A casa estava decorada e nova e luxuosamente mobiliada, as árvores do jardim cuidadosamente cortadas, as aléias bem varridas. Tudo ali respirava uma felicidade tranqüila, organizada e próspera. Depois do café, Marie-Louise nos deixou discretamente, adivinhando nossa necessidade de confidências.

Durante toda a refeição, eu não descolara dela o olhar. Agora não encontrava palavras para expressar minha admiração diante daquele êxito no gênero burguesia de boa cepa. Ficamos em silêncio durante um bom momento. Às vezes, um sorriso divertido definia nosso pensamento.

Não tínhamos necessidade de palavras para nos comunicarmos. “Você não sabe do melhor!”, acabou dizendo Menard, sacudindo ligeiramente a cabeça. “Marie-Louise é uma maravilhosa mulher de negócios! Foi ela que reergueu a loja de ferragens que meus pais tinham deixado decair. Graças a ela, estou nadando em ouro.” Meu sorriso se acentuou. Eu estava achando graça da situação. “Você se lembra de nossas conversas sobre especialistas?” lançou-me ele.

Estávamos rindo francamente, quando Marie-Louise voltou, empurrando na frente os dois filhos que haviam passado a manhã na casa dos avós. A menina me fez uma graciosa reverência. O menino se inclinou e só pegou minha mão quando eu a estendi. Depois a mãe desapareceu com eles nas profundezas da casa. “Vou-lhe fazer uma confissão”, declarou-me bruscamente Menard.

Hesitou um pouco antes de continuar e serviu com respeito o conteúdo de uma garrafa empoeirada em nossos copinhos: “É uma aguardente de Charentes 1893. Você vai me dizer o que acha.” Hesitava, com os olhos fixos no licor dourado que escorria no gargalo da garrafa: “... Você com certeza não esqueceu nossas... reuniõezinhas de antes da guerra com Marie-Louise?” Sua necessidade de confidências tinha que lutar contra a reserva de um burguês um pouco pudico, constrangido por dever abordar um assunto escabroso: “Lembra-se do que dizíamos dela?” E sem esperar minha resposta: “... Nós dizíamos que ela era uma artista!” Estendeu-me meu copo e pegou o seu.

O perfume da preciosa bebida invadiu deliciosamente minha boca, correu ao longo do palato, subiu ao longo das fossas nasais, ganhou meu cérebro, depois minhas artérias, espalhando por todo o meu corpo e em todo o meu espírito uma sensação de bem-estar: “Uma obra-prima”, comentei. Pousamos nossos copos numa mesinha, gozando daquela intimidade perfeita proporcionada pela boa mesa e a bebida de qualidade. Subitamente Menard olhou para mim, com o rosto iluminado de felicidade: “Pois olhe, meu velho”, disse-me, pontuando a declaração com um bom tapa na minha barriga, “Marie-Louise não mudou. Enfim, quero dizer que ela continua sendo uma artista. A grande diferença é que sou seu único cliente.”

(Screen Producers Guild Journal, 23 de dezembro de 1963; Positif n. 173, setembro de 1975)

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