Por Louis Skorecki
O senhor Edouard acalmou-se. Depois de ter revisto o Drácula de Coppola deu-se conta (um pouco tarde, penso, mas não ousei dizer nada) de que se tratava do último grande cineasta americano. Nunca está onde o esperamos, disse a Caroline, que o olhou com admiração. É simples, deixaram-se transfigurar, ele pelo amor por Coppola, ela pelo amor pelo senhor Edouard. Digo isto, mas nada é certo. Entre eles, nunca sabemos o que se passa ou o que se passou. Coppola, digo eu, não é simples, lamentando imediatamente tê-lo dito. De um filme a outro, continuo em voz pouco firme, há ainda assim abaixamentos de regime. Peggy Sue Casou-se, por exemplo, é um pouco… Um pouco quê?, berra o senhor Edouard. Apontas-lhe o quê, à Peggy Sue? Não é perfeita, a Peggy Sue? A minha boca está seca, fico sem voz. É um filme um bocado insosso, penso, diz Caroline, para vir em meu socorro. É demais para o senhor Edouard. Gira os tacões e desaparece.
No dia seguinte encontro Carolina no Classik, esse velho cinema que serve de discoteca ao fim de semana. Decidimo-nos a rever Peggy Sue Casou-se para tirarmos o assunto a limpo. Nesse dia não há fila. Bom sinal ou mau sinal?, pergunto. Caroline não responde. A partir das primeiras imagens ficamos enfeitiçados. É sublime, digo a Caroline, no escuro. No escuro, ela faz que sim com a cabeça. Duas horas mais tarde, no café, damos a mão e choramos. É duma tal fragilidade, diz Caroline, não me recomponho. Se Buddy Holly tivesse filmado a sua Peggy Sue, digo eu, não o teria feito doutra maneira. O senhor Edouard tinha razão, diz Caroline. Faço que sim com a cabeça. É evidente que Coppola é o maior, digo. Caroline abana a cabeça enquanto limpa as lágrimas. Tiro do bolso o meu lenço.
Tradução de Luis Miguel Oliveira.