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Sabem que, com Only Angels Have Wings, Rio Bravo é dos filmes de Hawks o que mais gosto. Entre os gigantes de Hollywood, Howard Hawks era o mais moderno de todos. É simples, fez obras-primas em todos os gêneros possiveis. Um dia, um canal de televisão me propôs realizar um documentario sobre ele. Eu teria imensa alegria de participar do projeto, mas a produção impunha-me que o fizesse diretamente em vídeo. E isso não era possível.
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O que pensa, hoje, da evolução do western?
O western foi sempre a única forma mitológica que os Estados Unidos conseguiram criar… Todas as esperanças, todos os medos, todos os problemas das pessoas foram tratadas no western. Nos anos 60, quando emergiu o western-spaghetti, sobretudo C’era una volta il west de Leone, a visão do oeste tornou-se mais maneirista do que a do western americano clássico. Penso no uso do enquadramento em Sergio Leone. É algo de inultrapassável. A abertura de C’era una volta il west, em que vemos um grupo de bandidos à espera do comboio, é uma grande lição de cinema. A qualidade dos enquadramentos e a imaginação na escolha dos planos são impressionantes. A utilização do wide screen demonstra a beleza da imagem – aquelas texturas! Depois repare no modo como Leone multiplica os detalhes insignificantes. É extraordinário. Hoje o western tornou-se ecológico, sobretudo depois do sucesso de Dances with Wolves. É desnecessário dizer que o acho muito menos interessante.
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Na verdade Suspiria influenciou-me mais que L’ucello… Sempre adorei o trabalho de Dario Argento, que tem um formidável sentido visual. Aliás, impressiona-me muito mais seu estilo do que as suas histórias. (sobre Halloween).
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Porque não? Uma das primeiras questões que me coloquei quando comecei a rodagem de Halloween foi: “Como utilizar a câmera e o ponto de vista dum modo que crie o suspense?”. A utilização do Panaglide na sequência permitiu-me identificar automaticamente o ponto de vista de The Shape. De seguida empreguei o Panaglide como se fosse uma grua. A idéia era deixar o espectador numa certa indecisão e fazê-lo duvidar do que a câmera mostrava. Parece-me que se tratava de uma forma bastante nova de instaurar tensão e suspense no écran. E depois de ter encerrado todas as personagens no mesmo lugar, podia fazer tender o ponto de vista do filme para o lado das vítimas. De certa forma o público podia identificar-se com elas e partilhar o perigo que pairava sobre as suas cabeças.
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Não, Christine não é um filme assustador, não era na época e não é hoje. E sou inteiramente responsavel.
Stephen King, por seu lado, ahca que o filme faz medo, mas não concordo com ele. Penso que falhei completamente na tentativa de fazer de Christine um automóvel terrificante.
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Sim, Prince of Darkness é um filme sem qualquer humor. Um filme, em primeiro grau, brutal e sem concessões. Eu o realizei sob o efeito da raiva, e creio que isso seja sentido, com muita força, ao longo de todo o filme. É que Big Trouble in Little China e Prince of Darkness correspondem a um período muito difícil da minha vida profissional.
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Em They Live desenha um retrato terrível da sociedade americana. Voltaria a fazê-lo hoje?
Sim, claro. Desde então nada mudou.
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Sim. Adoro Invasion of the Body Snatchers, e particularmente a versão de Abel Ferrara. É um filme que fala de medos metafísicos, como o de se crer que não se é um ser humano.
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Não acha que o cinema de horror e o cinema do medo são, por essência, um cinema político?
Sim, completamente.
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Diria, como Orson Welles, que o papel do artista é criticar os seus contemporâneos?
Sou plenamente a favor dessa idéia, e é por isso que o cinema que faço é profundamente político.
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Sim, era uma das idéias. A produção queria que o herói viesse da classe média. Pensavam que seria mais fácil o espectador identificar-se com um herói da classe média do que com um sem-teto. Mas eu queria absolutamente que esta história fosse contada do ponto de vista de um desfavorecido, de um excluído. Penso que nos Estados Unidos temos uma atitude muito ambígua frente à pobreza. Há muita hostilidade e agressividade em relação aos os sem-teto. Com They Live, queria que se compreendesse que estes sem-teto são indivíduos desenraizados, em constante deslocação, à procura dum emprego. Não têm um lugar seu.
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Devem saber que os Estados Unidos estão hoje, e cada vez mais, parecidos com uma espécie de país fascista. Pudemos pressenti-lo durante muitos anos, mas agora é algo que está verdadeiramente presente. Hoje, a maior parte dos americanos troca de bom grado as liberdades individuais em proveito da ordem, para que tudo seja fácil de alcançar, para que tudo seja liso e limpo. É uma época desesperadora. Pessoalmente, pensei que era importante incluir no filme um ponto de vista político subjacente, mesmo que Escape from LA seja, antes de mais nada, divertimento.
Se tivesse que viver no universo de Escaper from LA, que lado escolheria?
Oh, adoraria ser deportado para Los Angeles. Considero-me culpado de vários crimes contra os Estados Unidos.
Excertos da entrevista de John Carpenter concedida a Luc Lagier e Jean Baptiste-Thoret.